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quinta-feira, janeiro 28, 2016

Introdução do Cristianismo na Hispânia




Introdução do Cristianismo

Durante os Séculos II e III, deu-se na Península Ibérica um facto que teria as mais profundas consequências sobre todos os aspetos da evolução sociocultural. A Introdução do Cristianismo. As notícias mais antigas da entrada da Nova Religião na Hispânia são de uma fase já relativamente adiantada no processo. Em 202 o escritor Quintiliano convertido uns anos antes afirmava que o Cristianismo já chegara á - Hispaniarum omnes termini - a todos os confins da Hispânia. É uma frase oratória e exagerada mas que revela uma larga difusão. Como chegaram aqui as novas ideias religiosas não o sabemos. Uma tradição muito antiga e verosímil pretende que o apóstolo S. Paulo esteve na Península e fez a sua pregação. De seguro sabe-se que numa epístola dirigida aos cristãos de Roma, prometia passar por aquela cidade na viagem que ia fazer á Província Hispânica. De facto, chegou a Roma, sofreu ali perseguições que o retiveram anos, e ignora-se se depois disso teve ou não oportunidade de vir à Península Ibérica. Se acaso o fez, foi pelos anos 64 a 66, não são conhecidos documentos que atestem a sua passagem. Puramente lendário é o que se refere à pregação do Apóstolo S. Tiago. O culto exercido sobre o túmulo da sua invocação em Santiago Compostela, é realidade da maior importância na história religiosa e cultural da Idade Média na Europa Ocidental e com reportações na formação da nacionalidade portuguesa. Mas esse culto só teve início no século IX. O que há decerto é que pelo ano de 810, um Bispo galego encontrou uma sepultura da época romana e afirmou que era o túmulo de Santiago Maior, apóstolo martirizado em Jerusalém. Ainda no século IX, instalou-se uma devoção que ainda hoje prossegue em Compostela, para onde o túmulo teria sido trasladado após o aparecimento na região das rias. E lendária é igualmente a antiga tradição dos “sete varões apostólicos”, segundo o qual os apóstolos Pedro e Paulo teriam escolhido sete virtuosos varões que vieram à Hispânia e aqui seriam os primeiros Bispos. Parece tratar-se de uma espécie de eco provincial do facto histórico da eleição dos sete Diáconos. Uma repercussão curiosa e vivaz desse ciclo Mitológico levará nos séculos XIV e XV, à lenda da ilha das Sete Cidades, refugio dos sete Bispos ante a Invasão Muçulmana. O que presentemente se sabe sobre fontes diretas do Cristianismo em Portugal indica que os primeiros crentes da nova fé chegaram á Hispânia vindos do Norte de África, e eram possivelmente legionários da VII Legio Gemina, que tinha o seu principal aquartelamento em Legio «Léon» mas tinha guarnições em vários pontos da Hispânia, designadamente em Mérida, e também em África. É com a origem africana das primeiras Igrejas Hispânicas que se relacionam as primeiras noticias que temos da Lusitânia Cristã. No ano de 250 o Imperador Décio ordenou mais uma perseguição «A sétima segundo a Cronologia dos Martirológicos», publicando um edito que exigia a todos que sacrificassem aos Deuses ou que apesentassem um certificado escrito «Libellum», de que haviam feito. Os Bispos de Mérida, «Capital da Lusitânia», e de Astorga e León, apresentaram esses certificados e foram por isso, acusados de «Libeláticos» e destituídos dos seus cargos pelos fiéis. Não conformados recorrerão ao Bispo de Roma que já então dispunha de um certo Primado sobre os outros Bispos, e foram reintegrados. Os especialistas ainda hoje se perguntam como se terão justificado, os dois Bispos. E uma das explicações é curiosa, porque revela a confusão de cultos desta época. Os Bispos teriam feito os seus sacrifícios a uma imagem Cristã do Bom Pastor, iludindo assim as autoridades, que julgaram ser uma imagem Pagã, talvez da Religião Mitraica. O Bispo de Roma aceitou as explicações dos dois prelados e reintegrou-os, mas os membros das respetivas Igrejas não concordaram com a decisão e submeteram o caso ao julgamento de Cipriano, Bispo de Cartago, que era por essa época a mais saliente das Dioceses, já instituídas em África, e este decidiu contra os «Libeláticos» acusados de fé Pusilânime. Supõe-se que os Cristãos da Lusitânia e de Astorga «cuja Diocese incluiria a atual província de Trás-os-Montes», recorreram ao Bispo de Cartago, porque nesta época, as Igrejas instituídas guardavam um vínculo de submissão moral em relação às Igrejas de origem dos seus instituidores, e isto é mais um indício da origem africana dos primeiros Cristãos. Chegado às nossas cidades, talvez durante o século II o Cristianismo difundiu-se inicialmente pelas regiões do litoral e, no caso português, as primeiras zonas cristianizadas devem ter sido Lisboa e o Algarve. Mantinha-se entretanto o culto oficial romano e era ativa a devoção à volta dos Deuses do Panteão Indígena. Sucede até que o maior número de monumentos consagrados aos deuses nativos é desta época, o que pode ter uma dupla explicação. Por um lado, o reavivamento de sentimento religioso que então se verificou. Por outro lado, a adoção pelos nativos, do costume romano de consagrar «Aras» com inscrições, às divindades. O reavivamento religioso é documentado pela voga, que por essa mesma época, conhecerem na Hispânia «e de modo particular no território português» os cultos às divindades orientais «Mitra, Cibele, Nemésia, Ísis, Serápis». São numerosos os documentos epigráficos que atestam a intensidade atingida por essas religiões exóticas. Este facto sugere por um lado, um relacionamento intenso, ao qual não foram alheios os movimentos das tropas da VII Legião Gemina. Por outro lado pode revelar um clima de necessidade de justificação moral, uma avidez de novos nexos explicativos, estados de espirito característicos das conjunturas históricas em que se rompeu o equilíbrio e a coerência internos. Dessas religiões novas, e como elas vinda do Oriente, o Cristianismo tinha de peculiar o humanismo, a preocupação com o problema «moral», isto é com a intimidade pessoal, e contemplava sob esse vetor moral todos os problemas individuais e coletivos, incluindo entre os últimos a organização da sociedade e do Estado. É essa a grande diferença do Cristianismo em relação à religião oficial romana ou às religiões orientais em voga no século II, o carácter moral e a exigência de uma sociedade submetida aos mesmos valores que regem a vida moral pessoal. Isto fazia do Cristianismo uma religião subversiva, isto é, uma religião que exigia a substituição do Estado vigente por um Estado moral. E por isso mesmo, foi o Cristianismo a única religião que o Estado Romano reputou perigosa para a sua sobrevivência e mandou perseguir. Essas perseguições tiveram por efeito uma espécie de consciencialização de dimensão heróica. Desde cedo as comunidades cristãs se incumbiram de elaborar «martirológios», isto é, listas dos que tinham sido executados pelas autoridades romanas em virtude da sua fé. Alguns dos grandes vultos do Cristianismo estiveram ligados às perseguições, como o Apóstolo S. Paulo, que tomou parte no martírio de Santo Estêvão. Essas razões «mensagem social do Cristianismo e o espirito de resistência à repressão» explicam no plano histórico a extraordinária audição encontrada, independentemente de quaisquer razões de outro tipo. No ano de 303 existiam Igrejas organizadas em Faro e Évora o que sabemos porque os respetivos Bispos estiveram presentes no concílio que nesse ano reuniu em Ilíberis «Elvira, próximo de Granada». As atas desse concílio permitem estabelecer um quadro vivo da vida da Igreja nesses primeiros tempos. O pensamento religioso fazia progressos entre as classes superiores e entre a nobreza sacerdotal, assim, os duúnviros eram proibidos de entrar numa Igreja durante o ano da sua magistratura, pois se admitia que durante esse ano, não podiam deixar de comparecer aos jogos consagrado aos deuses, por outro lado, admitia-se que os cristãos proprietários tivessem em casa ídolos «imagens de deuses pagãos», para que, ao destruí-los, não incorressem na ira dos servos. Um outro cânone estabelece que não sejam considerados ‘Mártires’ os cristãos mortos na ocasião em que destroem ‘Ídolos’, isto é, que provocaram o seu próprio ‘Martírio’. A maior parte dos Cânones aprovados estabelece regras morais para o comportamento pessoal em relação à família e para com a Igreja. A segregação dos Judeus é ai anunciada pela primeira vez, é proibido aos cristãos, tomarem as refeições na companhia do Judeu. No ano de 313 o Imperador Romano Constantino autorizou aos cristãos a liberdade de culto. As Igrejas saíram então da clandestinidade e desenvolveram-se com rapidez. Era uma nova estrutura que surgia e que depressa iria substituir as estruturas do Estado Romano, que estavam em fase de degradação. As cúrias municipais perderam toda a vitalidade e em muitos casos deixaram de funcionar por falta de cidadãos dispostos a exercer as magistraturas e cargos administrativos. Os Bispos e seus auxiliares em breve constituíram um poder paralelo e, em muitos casos, sucedâneo. Na fase inicial a jurisdição dos Bispos coincidia com o território municipal, mas o crescimento dos núcleos de fiéis, que organizavam Igrejas próprias e precisavam de um Bispo que presidisse à comunidade, depressa tornou essa divisão inadequada. A organização das províncias eclesiásticas estabeleceu-se também com base no sistema administrativo romano, as Sés provinciais mantinham uma posição de subornação em relação à sé da cidade, que desempenhara a função de Capital de Província. Desse modo, as cidades de Braga, Mérida, Tarragona, Sevilha e Cartagena, Capitais, respectivamente da Galécia, Lusitânia, Terraconense, Bética e Cartaginense, desempenharam o papel de Sés metropolitanas. Era principalmente nas cidades que se encontravam as comunidades de crentes, presididas pelos Bispos. Nas aldeias, que eram os antigos castros, as populações rurais continuaram durante o século IV a praticar as antigas religiões que se mesclavam de elementos colhidos no convívio com a cidade romana. A difusão do Cristianismo nos meios rurais e designadamente nas regiões do nosso Entre o Douro e Minho, é em parte, desencadeada pelo movimento priscilianista.

O Priscilianismo

O facto de maior relevo, na vida espiritual das populações do Norte de Portugal durante o século IV é o Priscilianismo. No último quartel do século IV assistiu-se à difusão, por toda a Galécia, uma corrente religiosa caraterizada pelo ‘Ascetismo’ e pelo ‘Misticismo’. O nome do movimento vem do seu principal instigador, Prisciliano. Era um galego nobre e rico, que se supõe ter nascido em Iria Flávia «Atual cidade de Padrão», de uma família de mercadores, que mantinha relações com o Oriente. As suas ideias religiosas, dirigiram-se contra os abusos do Clero «casamento de clérigos, exercício de profissões profanas» e estavam fortemente impregnadas de elementos de filosofia originários de Oriente. Segundo a indicação de Sulpício Severo, autor dos principios do século V. a origem do movimento esteve na vinda de um egípcio de Mênfis, que difundiu as ideias gnósticas e maniqueias. A pregação de Prisciliano encontrou calorosa adesão e os seus adeptos, tornaram-se missionários entre as populações rústicas. O movimento teve a sua maior intensidade nas dioceses de Lugo e de Braga, e tudo indica que o Bispo de Braga foi dos que abraçou as novas ideias, que representavam um anseio de regresso à pureza da fé primitiva. A reação contra o grande movimento religioso partiu de uma Sé muito distante da região em que ele se verificava. Foi o Bispo de Córdova Higinio, quem iniciou a luta contra o ideal surgido entre os galegos. Para isso aliou-se ao Bispo de Mérida, metropolita da Lusitânia que convocou um concilio no qual a nova corrente foi formalmente condenada. Os partidários de Prisciliano não acataram a decisão. O Bispo de Córdova parece ter aderido ao movimento, e quem depois dele de salientou na perseguição foi o Bispo de Ossónoba, diocese que corresponde ao Algarve português. Em todo o episódio priscilianista se sente uma tensão e rivalidade entre o Norte e o Sul da Hispânia. Entretanto, Prisciliano era elevado á dignidade de Bispo de Ávila e, na companhia de outros dois prelados, dirigiu-se a Itália para tentar submeter a sua causa ao julgamento do próprio Papa. Mas o pontífice não quis intervir numa questão que agitava os confins do mundo cristão e na qual todos diziam representar a pureza da fé. O priscilianismo entretanto fazia grandes progressos no Noroeste da Hispânia. A prática do culto saia das cidades episcopais e penetrava no interior do País, mobilizando em grande parte da população camponesa. Uma das manifestações do culto priscilianista era o ‘Retiro nas Montanhas’. Cada aldeia numa certa data do ano, subia á colina próxima e ali fazia penitência e fazia as suas preces. Há possivelmente, relação entre essas práticas e as atuais romarias nortenhas, em muitos casos relacionados com lugares de culto no alto das colinas, tipo de devoção que não se encontra nas províncias do Sul do País. A doutrina dos Bispos galegos era fortemente ascética, e alguns autores relacionam-na com a convicção muito difundida cerca dos anos 370, de que o mundo estava para acabar. Mas outras hipóteses devem ser encaradas. A mensagem de uma verdade religiosa que projectava os seus mandamentos categóricos sobre a vida moral pessoal chocava grosseiramente com a realidade visível de clérigos negociantes, crentes pecadores, o quotidiano sórdido a cavalgar a limpidez inicial dos mandamentos. Nesse sentido, o priscilianismo representa o drama da transferência da fé urbana, para os meios rurais, e marca um surto de ascetismo na linha descendente da religião já instalada como instituição oficial. No pouco que sabemos sobre a práxis exigida, tem relevo a apologia da virgindade. O matrimónio e a procriação de filhos, a gula e o consumo de carne, eram tidos por fragilidades condenáveis da condição humana. O homem puro era um ser espiritual só entregue a deus, martirizava-se, alimentava-se só de vegetais como um asceta no deserto para assim se purificar e poder receber a mensagem divina. Deus era o Espírito. Prisciliano aceitava que Jesus Cristo trouxera a mensagem do Espírito, mas dizia que outros divinos mensageiros poderiam iluminar a Humanidade. Um traço significativo era o de que o asceta admitia que também nas mulheres pudesse encarnar o espírito de Deus, e considerava-as hábeis para exercer o sacerdócio, é possivel que esta posição se relacione com a personalidade muito vigorosa da mulher nas províncias do nordeste da península. O movimento progredia depressa e atingia a Lusitânia e a Bética. Com a viagem de Prisciliano, os adeptos alargaram-se à Septimânia e a unidade doutrinal da Igreja parecia ameaçada. Muitos Bispos vacilavam, estavam perante um desvio herético ou era uma alternativa purificadora que se abria? A vaga invadia os campos e o Cristianismo assumia nova força. O pensamento teólogo de Prisciliano divergia em muitos pontos da ortodoxia consagrada, mas o seu ascetismo e sinceridade valiam-lhe a admiração geral. Os adversários não conseguiram por isso obter uma condenação religiosa e procuraram obter uma condenação civil, com base em acusações de feitiçaria e orgias sexuais. O Imperador Graciliano proibiu-lhes o acesso ás Igrejas, mas não tardaram a ser reintegrados nas dignidades episcopais. Em 388 os Bispos tinham promovido a perseguição a prisciliano tiveram de resignar e fugir para Itália, enquanto os despojos fúnebres das vítimas regressavam triunfalmente à Galiza. Os seus sepulcros eram objecto de peregrinação de crentes, que os veneravam como mártires de fé. Sabe-se que o Bispo de Braga, Paterno, se contava entra os sequazes da seita. A Igreja organizada reagia pela condenação doutrinal aos desvios e no concílio que no ano de 400 reuniu na cidade de Toledo as teses priscilianistas foram formalmente condenadas, aí apresentou Paterno, com outros Bispos, a sua abjuração. Mas no seio das camadas populares e principalmente nas populações rurais, a interpretação do Cristianismo continuou a ser o Priscilianismo, pois fora pela voz dos missionários que a religião passara das cidades aos campos. No ano de 561 reuniram-se na catedral de Braga, os Bispos, Presbíteros, e todo o demais clero da Galiza, e o Bispo de Braga Lucrécio, recordou a necessidade de acabar com os erros do priscilianismo nas «pessoas ignorantes às quais, acantonadas nesta extremidade do mundo, e nos últimos confins desta província, pouco ou quase nada tem chegado da boa instrução». Os 17 capítulos aprovados permitem entrever alguns dos rasgos dessa religião popular, na qual Deus e o Diabo se repartiam o Imperio do Mundo, «Seja anatemizado quem acreditar que as almas humanas são emanações da substância de Deus, como o disseram Maniqueu e Prisciliano». «Seja anatemizado quem disser que o Diabo não começou por ser um anjo bom, criado por Deus, mas que pelo contrário, é autor de si próprio, surgiu do caos e das trevas, e é o princípio e a substância do mal como disseram Maniqueu e Prisciliano». «Seja anatemizado quem disser que o Diabo, por autoridade própria, crie seres maus e gera relâmpagos, trovões, raios, tempestades e estiagens, como disse Prisciliano». «Seja anatemizado quem acreditar que as almas e os corpos dos homens estão inevitavelmente dependentes dos astros, como o disseram os gentios e Prisciliano». «Seja anatemizado quem acreditar que os doze signos do Zodíaco estão distribuídos por cada um dos membros do corpo e da alma, como diz Prisciliano». «Seja anatemizado o que condena os casamentos humanos e abomina a procriação dos filhos, como disseram Manique e Prisciliano». «Seja anatemizado o que disser que a carne não é obra de Deus, mas dos demónios, como o disseram Maniqueu e Prisciliano». (…). Mal sabemos até que ponto essas condenações extirparam crenças que se conjugavam intimamente com velhas usanças pagãs, mas há indícios de uma longa sobrevivência desses vestígios. Já foi sustentada a tese de que o culto medieval do Apóstolo Santiago, em Compostela, resulta de uma cristianização de um anterior culto ao túmulo de Prisciliano. Sabe-se que os seus despojos e os dos seus companheiros foram trazidos para a Galiza. Com esse culto pode estar relacionado o misterioso orago de S. Pedro de Rates, nas proximidades de Vila do Conde. A lenda diz tratar-se de um inexistente Bispo de Braga, mas há vários pontos que sugerem estarmos perante a reconversão do culto popular junto ao túmulo de um dos justiçados de Traveris.  

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