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quarta-feira, janeiro 09, 2013

Crónica da Família Cruz I

Família Cruz

“A minha família é secular em Portugal e particularmente no Monte da Lua”.


I Capitulo
As Origens

No século XII o Papa evocou uma cruzada contra o Islão e particularmente à terra santa de Jerusalém. Portugal continuava a sua cruzada contra o Islão por terras Lusitanas. A maioria das embarcações vindas do Norte, reabasteciam-se na cidade do Porto. Cidade grande, comercial, e estava no ponto certo para as embarcações vindas do Norte, fazerem a aguada e comprar principalmente carne salgada e também fumada. O abade Bernardo de Claraval, andava desde 1145, por ordem do Papa Eugénio III ou com o apoio dele a pregar por toda a Europa Cristã a necessidade de uma 2ª cruzada à terra santa, tarefa que teve o maior éxito, mobilizando dezenas de jovens combatentes, entre os quais Luis VII de França e Conrado III Imperador da Alemanha. Uns partiram por terra, seguindo pela Hungria e pelo Bósforo, outros por mar. Os cruzados que iam por mar, juntaram-se no porto Normando de Dartmouth na Inglaterra. Naquele local do Sul da Inglaterra convergiram em Maio de 1147, cerca de 13 mil homens provenientes da Alemanha, da Flandres, da Normandia e maioritariamente da própria Inglaterra. Dirigiram-se em 1º lugar para o Reino de Portugal. Na noite de 14 para 15 de Março de 1147, chovia imenso, em Santarém, o Rei de Portugal à frente de uma Melícia Templária de 120 homens, conseguiram atacar e conquistar a cidade. Foi um ato corajoso e bem executado.


O Rei de Portugal mantinha contato estreito com Bernardo de Claraval, o certo é que «S. Bernardo pôde avisar o Rei de Portugal, a tempo, da vinda dos cruzados que passavam para a Palestina». D. Afonso Henriques escreve de imediato uma carta ao Bispo do Porto, D. Pedro de Pitões, pedindo-lhe que «se os navios das cruzadas aportassem ali, tratasse aquela gente o melhor possivel e que, se alcançasse a justar com os seus chefes servirem-no na guerra, concluísse um acordo sobre isso, dando todas as seguranças necessárias e embarcando com eles para a foz do Tejo». O Bispo assim o tentou, e conseguiu, fez-lhes um discurso em latim que logo foi sendo traduzido para as várias línguas e eles aceitaram a missão espinhosa de ajudar o Rei de Portugal a conquistar Lisboa aos mouros. É nesta altura que no meio do exército cruzado está um cavaleiro Borgonhês chamado Roberto da Borgonha. Era um jovem vassalo do Duque da Borgonha que na euforia europeia contra o Islão e particularmente salvar dos infiéis a Terra Santa pediu ao seu senhor se podia partir. O Duque deu autorização ao seu jovem vassalo para partir e juntar-se em Dartmouth aos milhares de cruzados que iam partir para a Palestina. Quando chegou á cidade do Porto, empolgou-se com as palavras de D. Pedro de Pitões e com grande entusiasmo foi uns dos primeiros a aceitar a proposta de conquistar Lisboa aos infiéis, para ele combater os mouros era a sua prioridade. Desconheço as razões para D. Afonso I, convidar Roberto para jantar com a corte do Rei de Portugal. Será porque era da borgonha e ter sido um cavaleiro do Duque da Borgonha? Ou porque foi um dos cavaleiros cruzados que mais se destacou euforicamente ao discurso do Bispo do Porto? Uma coisa é certa Roberto foi ao jantar. Isto que vos estou a contar sobre Roberto e o resto da história da minha família é de expressão oral que ao longo dos séculos foi contada sempre de pai para filho para que não fosse esquecido e a nossa história continua mas foi o meu pai Joaquim Pacheco Cruz, que me contou esta história e a deu-me como testamento. Felizmente, tenho um rico filho Igor Cruz que vai continuar esta história. O jantar foi espectacular, não podemos esquecer que a influência moçárabe era grande, o Rei de Portugal recebia grandes contidades de produtos e dinheiro do Rei de Badajoz e do Rei dos Algarves. A sala estava ricamente ornamentada com grandes almofadões, grandes lençóis de seda e grandes tapetes Persas, tapavam por completo as pedras do paço real, incenso e outros preformes que davam um ambiente místico que o jovem Roberto nunca tinha visto nem sentir o ambiente das cortes cristãs Ibéricas e muito menos das maravilhas do mundo islâmico. Roberto ficou embriagado pelo ambiente e também com algum vinho á mistura levanta-se e virando-se para o trono onde Afonso I estava assentado, pegou na sua espada e pedio bravamente ao Rei para ele sozinho conquistar Lisboa aos mouros. Rizada geral. Roberto foi chamado, de tudo, e algumas palavras marcavam o seu ego. Os homens de confiança do Rei e os grandes cavaleiros que tiveram com seu pai todos tinham grandes cicatrizes de batalhas e eram todos companheiros do Rei desde o princípio.

Mas talvez pela sua coragem demonstrada ao Rei, o jovem Roberto é aceite pela elite do exército português, e o Rei convida o Borgonhês a ir com o seu exército e ser seu vassalo, Roberto completamente emocionado mandou-se de joelhos para beijar o manto real mas D. Afonso I agarrou-lhe os ombros e com a sua espada fez-lhe cavaleiro das suas ostes. Roberto começou a pensar que Portugal era o seu lugar a sua pátria e a terra que queria viver e morrer. D. Afonso Henriques não era filho do Conde D. Henrique sendo o seu bisavô Roberto I Rei de França? E tendo como avô o grande Duque da Borgonha Henrique? Para Roberto era um sinal de fé. O Rei de Portugal marchou com o seu exército, do Porto para Lisboa em meados de Junho de 1147, e Roberto já ao serviço de D. Afonso I, marchou no meio das ostes portuguesas, (penso que foi por esta altura que cria o sobrenome Cruz, e como cavaleiro, vassalo Real e comandante de umas das milicias é autorizado a ter estandarte e escudo), os cruzados em cerca de 200 navios, estiveram no Porto de 16 a 24 de Junho dia de S. João, e entraram no Tejo no dia 29 dia de S. Pedro. Começaram as negociações entre o nosso Rei e os cruzados europeus as quais foram demoradas e difíceis, tendo estado várias vezes a ponto de se romperem. Mas finalmente conclui-se um acordo, bastante «caro», para o lado português e muitíssimo vantajoso para os cruzados, era D. Afonso Henriques quem mais precisava de fechar o contrato, por isso foi ele quem mais cedeu. Mas D. Afonso Henriques estava habituado a negociar e sabia ceder no acessório para ganhar no essencial, já fora assim em Tui e Zamora, seria assim também em Lisboa. O resultado deste acordo politico-financeiro-militar, verdadeiro «contrato de prestação de serviços bélicos», com contrapartida remuneratória adequada, foi a constituição de uma poderosa coligação militar, internacional, de cariz europeu, cujo Comando Supremo do todo o exército estava na responsabilidade do Rei de Portugal tal como com o Comando Estratégico. O Rei organizou o exército dando o Comandos Operacionais aos chefes militares dos vários segmentos nacionais, D. Fernando Cativo, Alferes-mor dos Portugueses, Harven de Glanville, Comandante do corpo Inglês, Arnulfo de Areschot, Comandante do corpo Alemão, Cristiano de Gistel, Comandante do corpo Flamengo e os chefes dos piratas Normandos, os irmãos Wilhelm e Radulph. D. Afonso Henriques, com os 30 cavaleiros do bafordo de Valdevez, o Rei de Portugal passava, em menos de dez anos a chefiar um exército de 30 mil homens. Era o momento mais alto da sua carreira militar. Os problemas militares existiram, e foram todos bem resolvidos pelos chefes dos vários exércitos envolvidos. Cada um ocupou uma zona diferente, e cada um lutou arduamente durante um longo cerco que durou de Junho a Outubro, quatro longos meses.


Lisboa, o seu burgo era defendido por 13 mil almorávidas, suas torres estavam equipadas com aparelhos de guerra e toda a população estava disposta a morrer do que ser apanhado por aqueles bárbaros. Não vou aqui descrever os inúmeros episódios desse cerco e o ataque final ao castelo, que só por si dariam um livro. Roberto Cruz luta com bastante valentia nos vários ataques á muralha do burgo lisboeta. Depois do episódio de Almada, D. Afonso Henriques chamou Roberto Cruz para uma missão secreta. Devia de sair do acampamento português com o escudo no dorso do cavalo e com o estandarte escondido e com cerca de 30 homens de cavalaria ligeira, com a impressão que iriam caçar.


O objetivo do Rei era ter informações sobre a capacidade militar no castelo de Sintra e sua vila. Sintra o Monte da Lua era um local místico desde os tempos dos Druidas Célticos até ermitério desde o século III. A vila e as suas cercanias, era ocupada por Mouros, Judeus e Cristãos. Roberto Cruz estando fora de vista de Lisboa, desembrulhou o seu estandarte. Era constituído por uma lança onde estava cravada na lâmina a cabeça de uma cobra e o resto da cobra em pano e uma cruz vermelha no seu escudo. Pondo os seus homens em pontos estratégicos tendo os 30 seus escudos, lanças, espadas, facas e outros armamentos ligeiros prontos para conquistar Sintra de surpresa. Um dos seus homens comunicou-lhe que a guarnição do castelo tinha sido chamados para a defesa da cidade de Lisboa, outros simplesmente retiraram com os seus haveres para Badajoz. A maioria da população, principalmente a mais abastada seguiu a colona que se deslocava para Badajoz. Roberto Cruz fazendo um reconhecimento á vila repara que era constituída por cerca de 300 almas entre homens esfarrapados, mulheres, crianças e velhos. Então Roberto Cruz como os antigos pressores, declara á pequena multidão que Sintra e as suas cercanias doravante pertenciam ao Rei de Portugal, e que ele próprio assegurava a sua segurança e sossego, e cravou o seu estandarte no meio da vila. Os habitantes ficaram bastante impressionados e talvez, se borrando, todos ao ver o estandarte de Roberto. Imediatamente manda um dos seus homens, partir para Lisboa levando um mensagem lacrada onde contava exactamente o que tinha acontecido. O Rei que naquela altura estava a passar por problemas de gestão do exército recebeu a notícia com grande entusiasmo, «grande Roberto Cruz». Entretanto o tempo ia passando, Roberto Cruz para a população que restava, teve uma atitude honrosa e gloriosa para os cristãos e judeus mas para os habitantes mouros deu-lhes a hipótese de saírem com os seus haveres ou ficar mas tinhão de ser batizados e aceitar a fé em Jesus Cristo. Todos os mouros que ficaram foram aqueles que não tinham condições para fugir e ficaram aceitando a fé em Jesus Cristo, foram chamados de Cristãos Novos. Sem ter novidades do que se passava em Lisboa mandou 10 dos seus cavaleiros, como batedores que se concentraram no Cacem e em Rio de Mouros para defender Sintra, caso o Rei de Portugal não conseguisse conquistar Lisboa e o exército ter sido desbaratado. Roberto Cruz estava preparado para morrer a defender as terras e particularmente Sintra, sendo uma vila Real, que pertencia a Afonso I por direito da conquista da vila. Roberto Cruz não tinha notícias de Lisboa, todos os dias ia ter com os seus batedores que lhe diziam que não havia qualquer movimento por aquelas bandas, estávamos a meio do mês de Outubro.


Entretanto o Rei de Portugal fez um novo com os chefes mouros, sobre o modo de entrada no castelo, repartição dos despojos e direitos de saque. Em 24 de Outubro, uma guarda avançada de 300 homens penetrou no castelo do burgo amuralhado de Lisboa, e recebeu o dinheiro e haveres dos habitantes, e revistaram todas as casas. Em 25 de Outubro de 1147, precedido pelos chefes militares estrangeiros e pelos bispos portugueses, o Rei de Portugal com os seus estandartes e ao som de cornetas, pífaros e tambores, entra nas portas da cidade e em jeito quase de procissão militar D. Afonso I entrou no castelo, e na torre mais elevada colocou uma cruz de Cristo. Estava consumada a vitória dos cristãos sobre os muçulmanos no principal porto marítimo de toda a Península Ibérica. Lisboa não mais voltaria a ser dominado pelos mouros. A fronteira meridional de Portugal, em menos de um ano, passava de Coimbra para Lisboa. Entretanto em Sintra Roberto Cruz estava impaciente, vinha ai o Inverno, para os exércitos medievais só combatiam nos meses secos, e recolhiam-se nos meses de chuva, frio e neve em alguns locais. Se os mouros aguentassem até ao Inverno teriam a possibilidade de ver o exército cruzado a ser desbaratado e assim salvar cidade. Roberto Cruz tinha a noção disso e a 24 de Outubro de 1147, ele e mais 19 cavaleiros dirigem-se para Colares estando a vila quase deserta, passa por Trajouce pequena aldeia no caminho costeiro até á Ericeira vila de pescadores, mas voltando quando Roberto está em Trajouce chega um dos batedores que estava no pequeno acampamento no Cacem dois deles foram (o que depois vai ser o caminho real de Lisboa - Sintra), direito a Belas, ai encontraram um moçárabe que completamente aterrorizado disse que Lisboa estava para cair nas mãos cristãs, esta informação levou que os dois homens de Roberto arriscassem mais até às cercanias de Lisboa sem serem vistos. O que viram parecia um «espectáculo de Dante», era o inferno na terra, depois de quatro meses de cerco e fechados na cerca que ligava todos os fortes dos vários chefes. Tinha sido aberto a Oeste para poderem sair mas só com a roupa no corpo. Havia uma grande coluna de mouros a sair da cidade, em direção talvez a Almourol onde a passagem do Tejo era mais fácil antes das grandes chuvadas e além disso tinha uma pequena ilha. A cidade ardia em pequenos fogos que estavam a ser controlados e apagados, mas com a cidade sob fumo negro o espectáculo ainda era mais horrível, havia alguns mouros enforcados nas muralhas e nas portas, e o estandarte real arvorava no ponto mais alto da cidade. Os homens de Roberto Cruz cavalgaram o mais rápido possivel para o pequeno acampamento localizado no Cacem. Mudando rapidamente de cavalo e de cavaleiro já era noite e a viagem perigosa num caminho mal conhecido e estando escuro e sem nenhum ponto de referência levou o resto da noite para encontrar o caminho para Sintra, só ao amanhecer é que encontrou o caminho. Cavalgado o mais rápido possivel chegou a Sintra em grande algarrada acordando Roberto e quase toda a população. Vestindo.se rapidamente desceu as escadas de sua casa quando o seu homem lhe deu a mensagem do dia 23 só chegando a Roberto Cruz no dia 24 pelas explicações dadas do seu homem. Roberto depois de ler a mensagem dos seus batedores entrou em histeria alegre, dançando o que contagiou a pequena multidão que estava á porta da casa de Roberto. Bastante feliz mandou que toda a população menos os enfermos se reunissem no largo onde estava o estandarte e o seu escudo encostado ao estandarte de maneira que não caísse. E anunciou que o seu senhor e Rei e os portugueses, tinham conquistado Lisboa e declarou que a população preparasse três dias de festas com comida e vinho para todos de 24 a 26 de Outubro de 1147.


No dia 25 encheu uma sacola com carne fumada, queijo e algumas garrafas de vinho, e partiu em direção ao acampamento no Cacem. Durante a viagem foi devagar e pensativo. E agora qual seria o seu papel? Combateu corajosamente nas muralhas de Lisboa e tinha conquistado Sintra com apenas 30 homens mas seria o suficiente? Por um lado sabia que era respeitado, e como vassalo do Rei teria algumas benesses, principalmente achava que Sintra era sua. Mas sabia que não tinha muitas hipóteses com tantos nobres portugueses ou fidalgos estrangeiros. Chegou ao acampamento e assentou-se com eles, dois companheiros de armas. Calado e estando a observar o horizonte engolido nos seus pensamentos, até que um dos seus homens reparou numa nuvem de pó, que só poderia ser de um pequeno exército. Alarmado mas calmo mandou um dos seus homens investigar aquela colona sem se deixar ser visto, e fosse quem fosse ele deveria ser avisado rapidamente. O homem que estava de pé sem dizer uma palavra pegou no seu cavalo e foi directo á nuvem de pó. Passados algumas horas regressa a cavalgar rapidamente. O homem ajoelhou-se perante Roberto Cruz, e diz-lhe que a comitiva Real ia a caminho de Sintra. Perante esta notícia Roberto manda desmanchar o pequeno acampamento, e não deixar rasto algum. Roberto não queria deixar nenhum rasto de preocupação, para que o Rei no seu caminho para Sintra visse que Roberto Cruz tinha ficado inactivo com toda a certeza que o Rei conquistasse Lisboa mais tarde ou mais cedo. Os três cavalgaram rapidamente para Sintra. A vila estava relativamente decorada para festejar a conquista de Lisboa mas para Roberto não estava minimamente preparada e decorada para receber o Rei e os nobres que o acompanhavam. Roberto sabia que tinha algumas horas para por a vila minimamente preparada para receber o Rei e a sua comitiva por isso pôs toda a população da vila a trabalhar, os cristãos novos em todos panos e trapos, e começaram a decorar a praça da vila. As mulheres decoraram as suas casas com ‘lençóis’ em todas as janelas, e a entrada do burgo e a entrada do castelo foram decorados com flores e estandartes reais. No castelo na torre mais alta Roberto e os seus homens montaram um tripé para segurar um poste com mais de três metros e içaram uma grande bandeira Real. A vila e o seu castelo estavam preparados para receber o Rei. Em Outubro já os dias são mais pequenos, anoitece mais cedo, tinha sido um dia maravilhoso, com o céu limpo e a temperatura aumentou dois a três graus, previa-se uma noite limpa, estava no tempo da lua cheia, para Roberto era um bom presságio, parecia que Cristo o tinha abençoado. E de repente lembrou-se do banquete, completamente histérico começou a gritar por todo lado que se tinha esquecido no fim fizera todo menos o mais importante, Roberto estava á beira de ter um ataque cardíaco, tinham feito tudo menos o mais importante. Entretanto chegaram ao pé dele duas mulheres de mangas arregaçadas, ele estava histérico, uma delas deu-lhe um estaladão e começaram, a gritar para ele, que tinham tudo controlado, todos os fornos da vila estavam a fazer pão, o vinho tinha sido reunido de toda a vila, e os porcos já estavam nos espetos. Roberto á frente de toda a gente da vila que estava desde o princípio a ver aquele espectáculo em silêncio, mandou-se para o chão e de joelhos pegou na bainha das saias das duas mulheres, uma delas deu com a colher de pau uma pancada na cabeça dele, viraram-se e deixaram Roberto a ‘falar sozinho’, a multidão que até ai tinha estado em silencio, começaram a rir e a bater palmas á maneira moura. Principalmente com aquele acto, espontâneo Roberto, recebeu da população de Sintra o respeito, e a escolha para seu Senhor e Chefe da vila e do castelo mas essa escolha estava nas mãos do Rei e não da população. A comitiva real chegou às portas e as tochas da porta foram acesas. O rei reparando que o burgo era pequeno, mandou a sua comitiva apear-se, e só ele no seu cavalo persa todo branco que tinha sido uma das presas do saque de Lisboa, entrou em Sintra onde crianças mandavam-lhe flores. Cavalgou uns metros entre as casas que estavam decorados com panos dos melhores que tinham (não podemos esquecer que não ouve saque em Sintra, tudo que ele e os 30 roubaram entregaram aos seus respectivos donos) apenas os habitantes abastados fugiram, Roberto e os 30 ocuparam apenas as casas que tinham ficado vazias. Logicamente Roberto Cruz tinha ficado na melhor, mas eles sabiam que era tudo provisório. Mas vamos ao ponto principal, o Rei entrou na vila quando o sol descia a ocidente e a lua cheia começava a aparecer a Este. Roberto Cruz estava montado ao lado do seu estandarte que estava cravado, na pequena praça de terra (já pisada á milhares de anos) onde recebeu o Rei. Desmontou e ajoelhou-se e pediu ao rei para a vila ser integrada no Reino de Portugal (era um costume da Borgonha que Afonso conhecia e continuou por respeito a ele), o Rei desmontou mas como estava bastante casado teve uma ligeira dificuldade em desmontar, um dos homens da comitiva ia para o ajudar mas Afonso Henriques deitou-lhe um olhar que ele ficou gelado e não chegou a dar um passo, o Rei desmontou e virando-se para trás pediu que lhe dessem o Estandarte Real. Confusos tanto os habitantes da vila, como para a comitiva real, que acompanhava o rei estavam confusos e extremamente curiosos e em completo silencio a verem aquele espectáculo que não acenderam as tochas, e foi á luz de uma lua com um diâmetro fora do normal, e com o céu completamente limpo, dava uma atmosfera quase mítica. Roberto levantou-se e retirou o seu rapidamente e ajoelhou-se, pôs o seu estandarte no chão e o seu escudo encostado no seu joelho, o Rei com o estandarte real, chega ao pé de Roberto Cruz que ajoelhado e a olhar sempre para o chão. Quando o Rei chega ao pé de Roberto e põe-lhe a mão na cabeça. Finalmente Roberto levanta a cabeça e entrega o seu estandarte ao Rei e este aceitando Rodrigo levantou-se e recebe o estandarte real que o enterra no lugar onde estava o seu foi um momento quase místico com a lua a abençoar esta união. De repente toda a multidão começa a gritar e a cantar as tochas, são acesas as várias fogueiras para assar os porcos, a vila estava embrenhada, parecia ser dia tal era a claridade na vila. A praça não era assim muito grande, mas prepararam, depois da cerimónia da entrega da vila, a praça com compridas mesas ao longo da praça mas para o rei e seus notáveis ficaram numa mesa grande e em um estrado com a cadeira real exactamente no meio estava tudo preparado. Roberto só olhava para a lua e para o monte e pensava como eles conseguiram arranjar tudo? E voltou para o banquete real. Toda a gente comia e bebia era uma festa bastante animada, mas principalmente o Rei que se sentia á vontade, rindo e falava com toda a gente que conseguiam passar pelos 30 que faziam o papel de controlar a população, e a retirar ‘aqueles que não sabiam beber’. O jantar tinha terminado com toda a gente feliz. Tirando um ou dois nobres da ‘velha guarda’ que não compreendiam e também comer com «mouros» para eles era o fim da velha nobreza do Norte. Entretanto foram retiradas as ‘mesas’ do meio onde músicos e raparigas moçárabes que ficaram dançavam ao som de músicas árabes, todos sem excepção estavam embriagados com o ambiente que estavam vivendo. A lua ia já alta e curiosamente quando encontra-se por cima do monte (serra de Sintra) dando um ambiente místico á vila, um velho orador muito respeitado, contou com todo o pormenor a conquista de Lisboa. Não participando directamente na batalha derivado á sua elevada vida, mas assistio aos quatro meses de cerco, combates e histórias que aconteceram. Todos ouviram em silêncio, as crianças já dormiam, era uma história para ser cantada por todos os trovadores da Europa. Mas o que estava a acontecer em Sintra era mítico, os homens vindos do Norte nunca tinham visto um espectáculo místico, a lua parecia que se assentava no monte. Roberto ficou extremamente confuso e possivelmente já embriagado ajoelhou-se perante aquele fenómeno, todos os que ainda estavam acordados fizeram o mesmo, virados para o fenómeno que estavam a ver. Cristãos, Judeus, Moçarabes e Cristãos Novos, todos se ajoelharam a rezar a Deus, todos à sua maneira. O Rei ficou impressionado, mas os nobres aconselharam-no que aquilo tudo era uma fantasia e disseram que estava na altura de se recolher e descansar. O Rei irritado virou-se para os seus nobres e marcou a sua posição, já que não era indicado juntar-se a Roberto na oração a Deus, então só se recolhia depois de toda a gente que estava ajoelhada acabar a sua oração. Por fim os nobres ocuparam algumas casas, o Rei passou o resto da noite na casa que Roberto dormia. Todos os habitantes espalharam-se pelas casas que restavam.  Tinha sido uma noite memorável, o sol já ia alto quando a população aos poucos iam aparecendo, acordados aos poucos com a berraria das crianças que brincavam na porta do castelo, imitando a conquista de Lisboa. A casa de Roberto ficava relativamente longe, e (estamos a falar em metros), não era incomodado pela algazarra que as crianças estavam fazendo, o Rei acordou tarde, depois de se deitar ainda lhe custou a adormecer a pensar no problema que tinha de ser solucionado, Roberto tinha feito o que ele fez em lisboa sem muito sucesso, principalmente derivado aos estrangeiros, que ele agora queria ‘velos pelas costas’, o mais breve possivel. À população rural dos arredores de Lisboa ele conseguiu que ficassem porque agora estavam sobre a proteção Real. À população urbana também deu-lhes a garantia, mesmo depois de ter sido saqueada, que se quisessem podiam partir mas só com a roupa que tinham vestido. Mas depois de ver o que Roberto fez em Sintra, era o que queria para Lisboa. D. Afonso Henriques provara a si próprio e aos outros que não era um Rei qualquer, que não era apenas um bom guerreiro e tinha poder, sabia mandar e fazia-se obedecer. A vila estava prometida a D. Fernando Cativo, homem da alta nobreza e Alferes-mor do Rei. Roberto dirigiu-se ao Rei e diz-lhe com bastante tristeza que não tinha víveres suficientes, o que tinham era os restos da noite passada, e ajoelhou-se de cabeça baixa. O Rei mandou que Roberto Cruz se levantasse e que ia falar com ele como um igual, de guerreiro para outro guerreiro. Diz-lhe que no local chamado Cacem que um dos seus homens encarregue de medir a extensão de Lisboa até Sintra, chegou á conclusão que ficava praticamente a meio caminho, atempadamente mandou montar um pequeno acampamento com víveres de reserva e guardada por um punhado de guerreiros. Entretanto mandou que toda a gente, nobres, homens, mulheres, velhos e crianças, se reunisse na praça. Agradeceu a todos pelo modo como foi recebido, agradeceu a Roberto Cruz pela conquista de Sintra, e que Portugal por vontade de Deus tinha chegado á linha do Tejo e ia nomear o novo Senhor da vila, do castelo e das cercanias da vila. A comitiva Real estava preparada para partir, Cativo estava preparado para receber todas aquelas terras, ele estava a contar a renda que receberia todos os anos na sua terra nas Beiras. O Rei para espanto de todos apeou-se do seu cavalo pediu o estandarte de Roberto e dirigiu-se para o centro da praça. Toda a população estava ao redor da praça menos a comitiva real que já estava nas portas da vila, mas em cima dos seus cavalos conseguiam ver aquele espectáculo. Para Afonso e para Roberto aquele momento era especial, era como fosse um pai a falar com o filho, era tudo menos um espectáculo. Afonso retira o estandarte real, e enterra o estandarte de Roberto, e entrega a ele o estandarte real e mandou ajoelhar-se, retirou a espada e pousando a lamina no ombro de Roberto, e dizendo que ele era nomeado Senhor da Vila de Sintra, Alcaide do castelo dito dos «mouros», Senhor das terras que iam da vila até à aldeia da Ericeira, subia até Mafra, Pero-Pinheiro, Cacem, e o rio que passava em Rio de Mouro e Cacem até à sua foz, eram de Roberto da Cruz, e que a partir daquele momento, fazia parte da nobreza portuguesa, tinha o direito de ter brasão e a ser tratado por Dom Roberto da Cruz. Agarrou pelos ombros levantou-se o Rei dá-lhe um grande abraço e dá-lhe dois beijos nas faces, virou-se montou o cavalo e disse gritando para D. Roberto que no outro dia passa-se pelo Cacem e cavalgou com a sua comitiva em direção a Lisboa. Toda aquela cena foi vista por toda a gente em completo silêncio até as crianças assistiam caladas. De repente alguém no meio da multidão grita «longa vida para elRei de Portugal D. Afonso» ai toda a gente começa a gritar o que o homem da vila tinha gritado. D. Roberto ainda não estava em si, tinha de ‘voltar á Terra’. Nesse momento viu que toda a população gritava por ele, e sentiu a responsabilidade que esperava por ele. O Inverno estava a chegar e a vila e nas cercanias via-se fome e grandes dificuldades, até que lembrou-se das palavras do Rei em relação ao Cacem. Mandou aos seus homens que aparelhassem 11 cavalos, escolheu 10 dos seus homens e partiu em direção ao Cacem. Ao chegar viu um pequeno acampamento mas sem ninguem nas redondezas, apeou-se mais os seus homens e caminharam para as tendas, para espanto de todos estavam cheias de víveres de várias espécies, mas principalmente, animais vivos, galinhas, galos, coelhos, patos e principalmente duas vacas. Mandou a um dos homens que fosse á vila e trouxesse o maior número de pessoas. A comitiva entrou na vila com todos vindos a pé com todos os cavalos carregados, e as vacas a terem a hora de entrarem primeiro, foi uma festa, toda a gente estava contente e aliviados estavam preparados para passar o Inverno. Roberto não passava de pensar que, com apenas 20 anos tornasse Nobre mas com uma grande responsabilidade repor na vila a vida que tinham. Os meses iam passando, os animais reproduziram, o vinho de Colares era bebido por, toda a terra, todos viviam em paz. Houve um pequeno grupo composto por 15 famílias todas de moçárabes, cristãos novos, 3 famílias judaicas e duas famílias de «mouros» que se apresentaram e pedindo todos de joelhos que D. Roberto fosse o seu senhor. Ele aceitou e espalhou as famílias pelos vários lugares, menos as famílias de artesões, que ficaram como moradores da vila. O freire Orlando figura cómica, tinha 1m e 60c, um corpo que parecia uma bola, ruivo e com as bocejas sempre vermelhos, chegou-se ao pé de D. Roberto e falou-lhe de um lugar em Colares que era um lugar santo e que sonhava com uma igreja e um lugar de peregrinação. Roberto ficou a pensar nisso, ter nas suas terras um Santuário e os peregrinos deixavam algum dinheiro.


E os meses passavam a anos e D. Roberto fez um trabalho de assinalar, a vila aumentou de casas e de população aumentava. D. Roberto Cruz precisava de um escrivão e de um tesoureiro, para escrivão nomeou o judeu David e para tesoureiro, outro judeu de nome Ismael, contra a vontade do frei Orlando por pouco tempo. Ele viu o excelente trabalho que eles estavam fazendo e aos poucos foi-se tornando um grande amigo deles. Em 2 anos D. Roberto fez dos seus, domínios, um dos mais ricos de Portugal. Estas notícias chegaram a Coimbra onde Rei tinha o seu paço. O rei convocou D. Roberto da Cruz a Coimbra, para uma reunião, demasiadamente Importante. Essa reunião seria realizada a dessa data a dois meses e meio. E o mensageiro virou o cavalo e foi-se embora. Era uma mensagem sem resposta, era uma convocação. D. Roberto não tinha equipamento bélico na vila, e nunca pensou que seria convocado. A vila soube e encheu-se de orgulho mas viam D. Roberto de cabeça baixa, e parecendo ter um ar de preocupação. Uma velha mulher chegou-se ao pé dele que estava sentado á sombra de uma árvore e perguntou-lhe o que se passava? Ele pensou o que ela tinha com isso, mas precisava de falar, convidou a velha senhora a assentar-se e começou a desabafar, que tinha sido convocado e não tinha nem roupa, nem cota de malha nem capacete, para si e muito menos pelos dois homens de Roberto. Não podemos esquecer, ele tinha dobrado o número de casas na vila, aumentou o número de habitantes, criou várias aldeias nos seus domínios e fez de Sintra um ponto importante da area de Lisboa. No aspecto militar mandou arranjar as muralhas e o mais importante construi-o uma torre de atalaia no ponto mais estratégico no monte da lua, para controlar a barra do Tejo e mandou construir um caminho desde a torre até á vila. Em dois anos e alguns meses tinha aumentado a vila, a população também aumentou consideravelmente. Roberto tinha bastantes terras, para arrendar e queria que fosse gente local, habituados ao trabalho como pescadores, grandes homens do mar e trabalhadores rurais que cada vez eram mais, derivados da chegada de bastantes famílias «mouras». Tentou que fossem arrendadas por habitantes da vila que estiveram com ele desde o princípio e deu-lhes condições especiais. Construiu poços por todo o seu domínio, e casas um pouco pobres com tecto de colmo mas dava para começar, em todas as parcelas de terra. Conseguiu na vila que os ferreiros, concentrarem-se no fabrico de enxadas e charruas. Roberto ainda tinha os carpinteiros e pedreiros que construíram a torre e agora estavam a aumentar a vila. O seu sonho era construir um monumento (igreja) em Colares no local dito de Santo, que com cada vez mais cristãos a visitar o local. E agora era convocado para a corte real e particularmente o Rei. O que havia de fazer? Concentrado e completamente envolvido nas questões da sua terra, não lhe pasou pela cabeça que fosse chamado à presença do Rei e agora não tinha condições mínimas pare se apresentar com os seus dois homens. A velha senhora pôs a mão em cima do ombro de Roberto e diz-lhe que está protegido por Deus e se já tinha mostrado que era especial, que não se preocupasse que ia para Coimbra, e mostrava com a sua presença a capacidades da população de Sintra. A velha senhora chamada Helena, dirigiu-se imediatamente para a casa que servia de ‘conselho’ e onde estava trabalhando e falou com David, e contou-lhe a conversa com D. Roberto. David e Ismael assentaram-se e começando a escrever e a falar hebraico entre eles. A velha Helena virou-se para eles e disse que tudo tinha de ser feito sem que Roberto saiba. Imediatamente mandou dois homens com cartas para o Rei de Badajoz e para o seu Alvazil. Também para o senhor (rico-homem) de Colares e para o ferreiro do Cacem que tinha a fama de fazer armas de qualidade. O Cacem onde, Roberto e o Rei tinham estado agora, estavam a construir uma comprida torre de pedra mas Gustavo Ferreiro senhor de aquelas terras já tinha construído um grande estábulo para 30 cavalos, um albergue com dez camas e uma taberna onde se podia comer, beber e descansar. A estrada de Sintra até ao Cacem foi reconstruida. A torre estava a ser construída para ser de atalaia mas também para ser um símbolo do começo das terras de D. Roberto Cruz para quem vinha da zona de Lisboa tinha um pequeno rio que demarcava fronteira das suas terras. D. Roberto tinha feito 23 anos era um guerreiro, e pensou que mesmo, não indo á convocação do Rei? Parou de pensar fosse como fosse tinha que ir mesmo com a sua armadura completamente esburacada seu escudo partido, levando o seu estandarte que com os anos não passava de um poste. Estava a chegar o limite do tempo que Roberto tinha para partir, a viagem até Coimbra ainda era longa. Os dias iam passando, as colheitas tinham enchido os celeiros. D. Roberto numa manhã foi ao Cacem para ver as obras da torre, e dizendo para a sua cozinheira que vinha almoçar. Entretanto na vila começaram a preparar tudo, para quando D. Roberto chegasse.


Quando chegou viu no meio da praça um grupo de homens e mulheres á volta de um género de mesa, Roberto dirigiu-se ao grupo e ficou com a boca aberta, a população ia-se reunindo na praça. Helena agarrou no braço de Roberto e diz-lhe á frente das armaduras que aquelas armas são suas, uma em particular era para si e as outras duas para os dois homens que Roberto escolhe-se, David e Ismael não eram guerreiros, escolheram os seus vestidos mais caros. Não havia tempo a perder tinha que partir. Roberto escolheu o cavaleiro, seu vassalo Luis de Sintra e outro bravo cavaleiro Fernando de Sintra para o acompanharem até Coimbra. Ele e os companheiros tinham ‘cotas de malha’ que eles vestiram com alguma dificuldade, a cota era dos pés até ao pescoço, tinha um elmo pontiagudo e uma pequena malha que lhe protegia o pescosso os outros tinham elmos iguais com proteção para o nariz. Foram vestidos com linho branco com uma cruz vermelha e com a cabeça da cobra por baixo, estavam 6 cavalos na praça 1 deles estava com uma sela magnífica e outro carregava mantimentos, um dos homens da vila entrega o cavalo que tinha a belíssima sela, estava na hora de partir, todos montaram, todos os habitantes da vila deitaram vivas quando a pequena comitiva que ia magnifica, os três guerreiros tinham capas brancas, D. Roberto ia á frente magnifico na sua armadura, seguido pelos dois cavaleiros que levavam lanças com os respectivos estandartes, um com uma cruz e o outro com a cabeça da cobra.



Fim do 1º Capitulo

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