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terça-feira, outubro 06, 2015

O Paço Real da Ribeira - XVI-XVIII


O paço "desce" do castelo até ao rio, para junto da Casa da Índia e da Mina. A Expansão Portuguesa transformou a cidade de Lisboa em capital do Império e num porto comercial de produtos de luxo.



O Rei, para estar mais perto das Naus que regressavam da Carreira da Índia, decidiu construir o seu paço junto ao rio, para onde veio habitar com a corte no início do século XVI. O Paço da Ribeira na margem do rio Tejo, na Ribeira de Lisboa.


Consistia num luxuoso Palácio Real erguido a partir de 1498, por determinação de Dom Manuel I, no contexto da descoberta do caminho marítimo para a Índia e do monopólio português do comércio das especiarias do Oriente com a Europa. O edifício, situado a poente do terreiro, possuía um baluarte defensivo da autoria de Francisco de Arruda, datado de 1508, e albergava no seu piso térreo as Casas da Índia e da Mina.




Possuía uma Capela Real, uma Biblioteca Real e a Sala do Trono. Dom Filipe II introduziu melhoramentos no torreão, da autoria de Filipe Terzi, mas foi o Rei Dom João V de Portugal, quem mais transformou o Paço, pela mão do italiano António Canevári e do alemão João Frederico Ludovice. Das obras joaninas salienta-se a construção da escadaria de acesso às salas da Rainha, a torre do Relógio e a Igreja Patriarcal do Rei.



Até então, a residência da ‘Família Real Portuguesa’ na capital era o ‘Paço da Alcáçova’, edificação medieval inscrita na defesa proporcionada pelo Castelo de São Jorge. A moderna concepção do Paço da Ribeira, numa perspectiva de administração centralizadora, passou pela sua inclusão como centro de uma série de novas edificações, integradas num complexo arquitectónico multivalente:



Residencial, áulico, naval, militar, comercial, administrativo e político. É pois de referir o facto de, em toda a zona envolvente, e nalguns casos dentro do próprio complexo palaciano, no seu rés-do-chão, terem sido instalados, em novos edifícios, todos os principais organismos relativos à administração e à logística naval do Império Português. Na Ribeira de Lisboa funcionavam, desde há muito, os principais estaleiros portugueses, até então chamados de ‘tercenas’, e, de finais do século XV em diante, denominados 'Ribeira das Naus', ou apenas 'Ribeira'.



O novo paço foi erguido sobre as tercenas de Lisboa, que o soberano determinou deslocar para Ocidente, de forma a renová-las e alargá-las. De planta rectangular, em estilo manuelino, dispunha de uma torre abaluartada sobre o rio, e de uma varanda em galilé de pedra rendilhada no segundo piso, que permitia ao soberano, à corte e aos seus funcionários vigiarem a entrada e saída dos navios do comércio ultramarino no porto de Lisboa, no coração do Mar da Palha. Abaixo dela, no primeiro piso, funcionou a Casa da Índia, um dos mais importantes espaços do complexo edificado, permitindo ao Rei controlar apertadamente os bens e as riquezas das especiarias armazenadas, licitadas pelos comerciantes que, de todo o resto da Europa, para ali acorriam, a fim de as adquirir e redistribuir pelo resto do continente. 



Integrada no complexo, foi erguida a 'Capela Real', notável pela sua música litúrgica, confiada ao capelão-mor do Reino e que rivalizava em importância com a vizinha Sé de Lisboa na organização e realização das grandes cerimónias religiosas em uso naquele tempo. Diante do Paço foi disposto um vasto terreiro pelo aterro da ribeira de Valverde, que dera o nome ao local e que ali desemboca no Tejo, cuja foz passou desde então a ser subterrânea. Esta ribeira corre actualmente sob a Avenida da Liberdade e a Baixa de Lisboa. Ao centro desse terreiro, a partir de então denominado como 'Terreiro do Paço', foi erguida uma fonte-chafariz.


Nele se realizou, a partir de então, a maior parte das cerimónias públicas de aclamação dos soberanos portugueses, quando juravam os foros do Reino ao herdarem a coroa, e outras festividades da capital portuguesa. O Terreiro do Paço logo se tornou no local preferido de fidalgos, burgueses, populares e comerciantes em Lisboa, pela sua situação privilegiada, desafogo, comércio a todas as horas e vizinhança do Paço.


O Rei e a corte mudaram-se para este novo palácio em 1503, terminadas as obras. O terramoto de Lisboa, veio a destruir quase inteiramente o antigo Paço da Alcáçova. Foram no entanto bem menores os estragos no novo palácio, tornado sede centralizada do Império Português. No século XVII, um palácio contíguo, nas traseiras do Paço da Ribeira, um dos mais ricos palácios particulares da cidade, o 'Palácio Corte Real', passou para a posse da Coroa, sendo desde então utilizado para residência do infante secundogénito da Família Real, e integrando-se neste complexo. O primeiro infante a habitar ali, Reinando o seu irmão Dom Afonso VI, foi o Infante Dom Pedro, depois Regente do Reino e finalmente Rei com o nome de Dom Pedro II. A época da Dinastia Filipina, Dom Filipe I determinou grandes obras no Paço da Ribeira, destruindo na fachada a sua delicada feição manuelina e impondo-lhe um mais pesado aspecto clássico, maneirista. Neste arranjo foi aumentado o seu volume e número de pisos, mantendo-se no entanto a grande torre sul, quadrada, como ponta do palácio, geometria que o edifício guardará aproximadamente até ao final da sua existência.


Com a singular distinção eclesiástica de Lisboa como patriarcado, no século XVIII, a capela do Paço da Ribeira foi provisoriamente elevada à dignidade de igreja patriarcal, enquanto se construía a nova basílica patriarcal, que depois veio a arder, ficando conhecida por Patriarcal Queimada. Para este efeito, Lisboa foi dividida em Lisboa Ocidental e Lisboa Oriental, ficando metade da cidade adstrita à 'Sé Catedral' e a outra sob a alçada da 'Capela Real Patriarcal do Paço da Ribeira', aonde passaram a desenrolar-se riquíssimas cerimónias litúrgicas e áulicas barrocas de imponente manifestação no quotidiano da corte e dos lisboetas.


O Paço da Ribeira, foi totalmente destruído, no grande terramoto de 1755 (1 de Novembro), o qual foi seguido de um ainda mais devastador maremoto sobre a zona baixa da cidade. Na biblioteca estavam guardados 70 mil volumes e centenas de obras de arte, incluindo pinturas de Ticiano, Rubens e Correggio. Tudo foi destruído. O precioso Arquivo Real com documentos relativos à exploração oceânica, entre os quais, por exemplo numerosas cartas do descobrimento do Brasil e outros documentos antigos também foram perdidos. Embora a Família Real estivesse ausente do palácio nesse dia, perderam-se para sempre os incalculáveis tesouros de arte do seu recheio ali acumulados ao longo de duzentos e cinquenta anos, período correspondente ao apogeu do poder e da riqueza portugueses no mundo, nomeadamente dos reinados de Dom Manuel I e de Dom João V.

















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