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sábado, dezembro 26, 2015

ANNALES PORTUCALENSES VETERES

Crónica dos Godos



Nota: As datas apresentadas são da «Era Hispânica» contada a partir de 1 de Janeiro de 38 A.C. e não da «Era Cristã», adoptada em Portugal só em 22 de Agosto de 1422, no Reinado de D. João I de Portugal. Por isso, para se descobrir o ano correcto do acontecimento referido é preciso retirar 38 anos à data.

Era de 349:  Saíram os Godos da sua terra.

Era de 366:  Entraram na Hispânica, e aí Reinaram durante 387 anos. Levam, porém, 17 anos a chegar da sua terra à Hispânica.

Era de 739:  Em outro lugar 740, foram expulsos do Reino da Hispânica, no Reinado de Vitiza.

Era de 749: Em outro lugar 750, os Sarracenos apoderam-se da Hispânica no Reinado de Rodrigo, antes do Reinado de Pelágio os Sarracenos imperaram na Hispânica durante 5 anos.

Era de 754:  O Rei Pelágio, filho do Duque Fávila, governou durante 19 anos.

Era de 773:  O Rei Fávila, filho daquele, Pelágio, governou durante 2 anos e 6 meses.

Era de 776:  O Rei Afonso I, filho do Duque Pedro, governou durante 19 anos.

Era de 785: O Rei Fruela I, filho daquele, governou 11 anos e 3 meses. Alcobaça, 11 anos, 5 meses e 22 dias.

Era de 806:  O Rei Aurélio, primo daquele, governou durante 6 anos e 6 meses.

Era de 812: O Rei Silo governou 9 anos, e no décimo ano, morreu. Alcobaça, 8 anos, 1 mês e 1 dia.

Era de 821: O Rei Mauregato Reinou 6 anos e morreu. Alcobaça, governou 5 anos e 5 meses, em outro lugar 6 meses, e acrescentara que sob a autoridade de um só se passam 81 anos.

Era de 826: O Rei Bermudo I governou 3 anos. Este renunciou ao governo voluntariamente e fez Rei seu primo Afonso II, que Mauregato expulsara do Reino.

Era de 828:  O Rei Afonso II Reinou durante 52 anos.

Era de 888:  O Rei Ordonho I, filho do Rei Ramiro I, Reinou 16 anos.

Era de 904: O Rei Afonso III, filho de Ordonho I, Reinou 18 anos. Este no primeiro ano do seu Reinado e no décimo quarto de idade é destronado por usurpação do apóstata Froilão, Conde da Galiza, mas o Rei foi para Castela e algum tempo depois, tendo sido morto em Oviedo pelos súbditos fiéis do Rei Afonso III o Rei usurpador e desgraçado, Froilão, aquela criança volta de Castela cheia de glória e é colocada felizmente no trono do pai. Desde o princípio do seu Reinado sempre considerou os inimigos como fautores de vitórias. No tempo dêle um numerosíssimo Exército veio a Leão sob o Comando de Al-mundhir, Califa de Córdova, neto do Califa Abde Arrahmane, irmão de Maomet, mas pouco dano lhe causou, porque, quando chegou, já muitos milhares de soldados tinham sido mortos e o restante exército pôs-se em fuga. No tempo dele outro exército entrou em Berdigo, mas graças a Deus foi destruído sem prejuízo daquele Rei. E este Rei dilatou o seu Império com o acrescentamento de muitas terras dos inimigos, efectivamente tomou o Castelo que se denomina Nazam. Durante a paz apoderou-se de Antenea, despovou Coimbra, ocupada pelos inimigos, e em seguida povoou-a de gente da «Raça Galaica», conquistou igualmente muitos outros Castelos. No seu tempo a Igreja prosperou, o Reino ampliou-se. Igualmente são povoadas de Cristãos algumas Cidades, como Braga, Portucale, Anco, Viseu, Emínio e assolando a ferro e fome outras terras da Lusitânia até Mérida, despovoou e cobriu de ruínas a costa. Ficou de pé o Reino da Hispânica dos Cristãos até ao Califa, Al mançor no ano 1024.

Era de 1026: A 29 de Junho o Califa Al mançor Benamet tomou Coimbra e, assim como o ouvimos a muitos velhos, ficou deserta durante 7 anos, sendo depois reedificada e ocupada pelos Ismaelitas.

Era de 1028:  A 2 de Dezembro, O Califa Al mançor tomou Montemor.

Era de 1033: O Califa Al mançor tomou o Castelo de Aguiar, que está na margem do Sousa, na província Portucalense.

Era de 1046:  A 6 de Outubro. Foi morto o Conde Mendo.

Era de 1054: A 6 de Setembro vieram os Normandos ao Castelo de Vermuim que está na província Bracarense. Era aí que o Conde Alvito Nunes que morreu a lutar contra os Normandos.

Era de 1056: Morreu o Rei D. Afonso III em Viseu. E no mesmo ano morreu o grande Conde Nuno Álvares.

Era de 1072: A 14 de Outubro o Conde Gonçalo Trastamariz tomou Montemor e entregou-o aos Cristãos.

Era de 1076:  A 1 de Setembro o Conde Gonçalo Trastamariz foi morto em Avenoso.

Era de 1083: A 23 de Março o Rei D. Bermudo II teve uma vitória sobre os Mouros, lutou com eles e aprisionou-lhes aí o Califa Cémia na povoação de César, no território do Castelo de Santa Maria.

Era de 1085:  Morreu o mesmo Rei Bermudo II.

Era de 1095: O Rei Don Fernando o Magno com sua esposa, a Rainha Donna Sancha, tomou Lamego a 29 de Novembro na festividade de Santo Saturnino, ao amanhecer de um sábado. O Rei Don Fernando começou o ataque á Lusitânia Ocidental. O Conde Sisnando Davides acompanha a comitiva Real.

Era de 1096: A 29 de Julho, no dia de S. Cucufate, o Rei D. Fernando tomou a Cidade de Viseu, depois os Castelos, de Ceiça, S. Martinho de Mouros, Travanca, Penalva e outros Castelos das vizinhanças das fronteiras Cristãs, no que gastou 8 anos a atacar e a reconquistar as Terras da Lusitânia Ocidental.

Era de 1102: A 25 de Julho, 6.ª feira, na véspera de São Cristóvão o Rei Don Fernando o Magno tomou Coimbra. Estava novamente nas mãos dos Cristãos o Condado Conimbricense. A Fronteira Cristã deslocou-se novamente para o Rio Mondego.

Era de 1103: O Rei D. Fernando o Magno morreu e foi sepultado na Cidade de Leão a 26 de Dezembro.

Era de 1103: A 26 de Novembro morreu o Conde Mendo Gonçalves, varão ilustre de grande autoridade em todo o Portugal, filho do Conde Gonçalo Trastamariz.

Era de 1109: A 18 de Janeiro, os Portugueses travaram Batalha contra o Rei Don Garcia, filho do Rei Don Fernando o Magno e Rei da Galiza que incluía o Condado da Galiza, o Condado Portucalense e o Condado de Coimbra. Naquela guerra contra o Rei, os Portugueses eram chefiados pelo Conde Nuno Mendes. Este morreu aí e todos os seus fugiram. O Rei alcançou sobre eles uma vitória num lugar denominado Pertalini, entre Braga e o Rio Cávado.

Era de 1110: Foi morto o Rei Sancho II, filho do Rei D. Fernando, em frente da cidade de Zamora, depois de cuja morte seu irmão Don Sancho II e o aprisionamento do Rei Garcia o Rei D. Afonso VI, ocupou o Trono da Hispânica. Este durante muitos anos moveu muitas guerras contra os Sarracenos, inimigos dos nossos Cristãos. A uns fazia guerra, de outros recebia tributos.

Era de 1115:  No mês de Setembro o mesmo Rei Afonso VI tomou a Cidade de Cória.

Era de 1123: A 25 de Maio o Rei D. Afonso VI tomou a Cidade de Toledo, depois a de Talavera e todos os Castelos que estão na Carpetânia, província de Cartago, ao sul da Cidade Régia de Toledo, que é a Capital do Império Hispânico.

Era de 1125: O Imperador Don Afonso VI travou uma grande Batalha com o Califa dos Sarracenos luçufe Bennamarim, da outra banda do mar, em frente da cidade de Badajoz num lugar chamado Sacrálias, onde voluntariamente se vieram juntar com o nosso Rei os Cristãos das partes dos Alpes e muitos Francos o vieram auxiliar, mas, por intervenção diabólica, um grande medo invadiu muitos dos nossos, e muitos milhares deles se puseram em fuga, sem que ninguém os perseguisse. O Rei, porém, ignorando a sua fuga, confiadamente entrou na Batalha em que se encontravam todas as tropas Sarracenas da Hispânia inteira. O próprio Califa Iuçufe Bentaisafim, que tinham tomado por seu chefe, trouxera consigo muitos milhares de bárbaros de além-mar, Moabitas e Árabes, cujo número nem o seu chefe nem homem algum podia saber, senão Deus.

E assim o Imperador D. Afonso VI e os que com ele tinham ficado lutaram contra os Sarracenos até à noite e nenhum dos inimigos conseguiu aguentar o ataque dele, os Sarracenos, cerrando fileiras, matavam grande número de Cristãos. Tantas vezes, porém, o Imperador atacou o Castelo e os arraiais dos Sarracenos, matando-os e dispersando-os, que os repeliu para um e outro lado, até que chegou ao lugar onde estava levantada a tenda do Califa Iuçufe e fortificada à volta com uma grande trincheira. Enquanto o Imperador atacava este lugar com toda a coragem e insistia no ataque chegou um dos seus e anunciou-lhe: «Sabes, Senhor meu rei, que, enquanto aqui combates, as ciladas dos Sarracenos invadem os teus castelos». Ouvido isto e tomando conselho com os seus, o Imperador deixou o Califa Mouro e afastou-se da tenda dele. Pressuroso, por isso, com os seus que junto de si se encontravam, dirigiu-se para os Sarracenos que tinham atacado os seus Castelos e matou muitos deles e valorosamente os expulsou dos Castelos. Ali muitos Cristãos morreram e os que ficaram juntaram-se ao Imperador. Mas como o Imperador tinha sido ferido por uma lança e tinha muita sede por causa do fluxo de sangue que corria da ferida, deram-lhe vinho em vez de água, por não terem encontrado água, pelo que sofreu um desmaio e voltou para Cória com aqueles que os acompanhavam. Os Sarracenos também voltaram cada um para o seu lugar.

Era de 1129:  A 25 de Agosto morreu o Conde Don Sisnando, em Coimbra.

Era de 1131: A 29 de Abril, num sábado, às 9 horas, o Imperador D. Afonso VI tomou a cidade de Santarém no 6° dia do mês do 28° ano do seu Reinado. E na mesma semana, a 6 de Maio, uma quinta-feira, tomou Lisboa. Três dias depois, a 8 de Maio tomou Sintra e entregou-a ao governo de seu genro o Conde D. Raimundo, marido de sua filha a Rainha D. Urraca e sob a direcção deste o Conde Sueiro Mendes. O próprio Imperador, voltou para a Cidade Régia de Toledo.

Era de 1147:  A 29 de Junho morreu o Imperador da Hispânica Don Afonso VI, filho do Rei Don Fernando o Magno.

Era de 1147: No mês de Julho novamente foi tomada Sintra pelo Conde de Portugal D. Henrique, genro do Imperador D. Afonso VI, marido de sua filha, a Rainha D. Teresa. Sabendo, porém, os Sarracenos da morte do Imperador D. Afonso VI recomeçaram a guerra.

Era de 1148:  Aconteceu uma grande desgraça aos Cristãos que iam para Santarém num lugar denominado Vatalandi. Quando os Cristãos queriam ali levantar as suas tendas e descansar, de repente, uma multidão de Sarracenos, de Moabitas e de Árabes, tendo-lhes chegado aos ouvidos o reduzido número daqueles, caem sobre eles e, encontrando-os despercebidos, mataram muitos deles, tendo ali ficado mortos o Conde Soeiro Fromariguiz, pai do Conde D. Nuno Soeiro, que os comandava e o Conde Mido Cresconiz, pai do Conde D. João Mido.

Era de 1149:  O Califa Cir tomou Santarém a 26 de Maio.

Era de 1151: Nasceu o Infante Don Afonso, filho do Duque da Borgonha e Conde de Portugal, Don Henrique e da Rainha, Donna Teresa e neto do Imperador Don Afonso VI.

Era de 1152:  A 1 de Maio morreu o Duque da Borgonha e Conde de Portugal, Don Henrique.

Era de 1154: Foi tomado pelos Sarracenos o Castelo de Miranda e feita nos Cristãos grande carnificina e aprisionamento.

Era de 1154: A 7 de Julho foi tomado pelos Sarracenos o Castelo de Santa Eulália, que está situado ao pé de Montemor, e aí capturado o Cavaleiro Diogo, por nome o Galinha, e o grande aprisionamento de Cristãos aí feito, foi transferido dali para além-mar.

Era de 1155: O Califa dos Sarracenos, Ali Ibn luçuf, vindo do outro lado do mar com um numeroso Exército, cercou Coimbra, tendo-se-lhe juntado também todo o Exército que aquém-mar estava, sendo o número dos seus soldados grande como o da areia do mar e só de Deus conhecido. Efectivamente cercou a Cidade Fortificada de Coimbra, e durante vinte dias quotidianamente a atacava ardorosamente com todo o seu Exército, mas, por vontade de Deus, não pôde fazer-lhe mal e a Cidade ficou ilesa e os habitantes nela.

Era de 1160:  Houve uma grande fome na Cidade de Coimbra e em toda a Região Portucalense, desde o Minho até ao Tejo.

Era de 1163: O ínclito Infante Don Afonso, filho do Duque da Borgonha e Conde de Portugal Don Henrique e da Rainha Donna Teresa e neto do Imperador da Hispânica Don Afonso VI, tendo cerca de catorze anos de idade, na praça da Cidade de Zamora tomou por suas próprias mãos, do altar da Igreja de S. Salvador, as armas militares e ali mesmo, no altar, as vestiu e cingiu, assim como os Reis costumam fazer no Santo Dia de Pentecostes. Vestiu-se com a Cota assim como Gigas, que era de grande corpulência, e cingiu-se com as suas armas de guerra. Nas batalhas tornou-se semelhante ao Leão nas suas acções e tal qual o filho do Leão rugindo diante dos caçadores.

Mas quem poderá falar dignamente de tão grande e tão ilustre varão?

Ninguém. Na verdade foi um homem valente na guerra, versado na língua, muito prudente nas suas acções, de inteligência esclarecida, formoso de corpo, belo de fisionomia, de olhar encantador, todo Católico na Fé de Cristo, respeitador dos Ministros da Religião, muito benévolo e devoto, defendeu Portugal inteiro com a sua espada, alcançou o Trono e, como Senhor, dilatou as fronteiras dos Cristãos e alargou os territórios dos povos fiéis desde o Rio Mondego, que corre junto dos muros de Coimbra, até ao Rio Guadalquivir, que banha a cidade de Sevilha, e desde o Oceano Atlântico até ao Mediterrâneo.

Resumidamente anotaremos a maneira como conquistou o Reino, os Castelos e as Fortalezas que aí construiu e também as Cidades e os Castelos que aos Sarracenos tomou, porque ninguém podia descrever as Batalhas que travou, pois foram muitas e inumeráveis não só com pagãos, mas também com Cristãos que, demasiado cobiçosos, lhe queriam arrebatar e invadir o Reino, a todos levando vantagem e sempre ficando vencedor, de todos triunfando sempre, ajudado da bondade divina.

Era de 1166: No mês de Junho, na festa de S. João Baptista, o ínclito Infante D. Afonso, filho do Duque da Borgonha e Conde de Portugal D. Henrique e da Rainha D. Teresa, neto do grande Imperador da Espanha, D. Afonso VI, com auxílio do Senhor, pela bondade divina, mais pela sua diligência e trabalho do que por auxílio ou vontade dos pais, tomou na sua mão forte o Condado de Portugal. Porquanto, morto seu pai o Conde de Portugal D. Henrique da Borgonha, como ele ainda fosse criança de dois ou três anos, alguns indignos estrangeiros usurpavam o Governo de Portugal, com o consentimento de sua mãe, a Rainha D. Teresa, querendo ela própria presunçosamente Governar no lugar do seu marido, afastando o filho dos negócios do Condado. Valente como era, tinha já bastantes anos e um bom carácter, de maneira nenhuma sofria esta afronta demasiadamente vergonhosa, tendo convocado os seus amigos Cavaleiros e os mais Nobres de Portugal com as suas ostes, que sobremaneira preferiam o governo dele ao da mãe e dos indignos estrangeiros, travou com aqueles a «Batalha no Campo de S. Mamede», que fica próximo do Castelo de Guimarães e foram destroçados e derrotado por ele, uns fugiram da sua vista e a outros mandou prendê-los. Ocupou ele o Governo do Condado de Portugal.

Era de 1168:  Morreu a Rainha D. Teresa, mãe do Conde D. Afonso, no dia 1 de Novembro no segundo ano do seu Governo no Condado.

Era de 1169: O Conde Bermudo Peres, cunhado da Rainha D. Teresa, quis revoltar-se no Castelo de Seia. Mas foi mal sucedido, porque o Infante Don Afonso tendo disto, conhecimento, foi ao encontro dele com os seus soldados e expulsou-o do Castelo.

Era de 1170: O Infante Don Afonso, começou a construir o Mosteiro de Santa Cruz nos subúrbios de Coimbra e uma ponte no rio junto da cidade no quarto ano do seu Governo do Condado.

Era de 1173:  A 10 de Dezembro o supramencionado Infante D. Afonso começou a construir o Castelo de Leiria, no sétimo ano do seu Governo, pois via as frequentes incursões e depredações que se faziam pelos campos de Coimbra, e, querendo refreá-las com mão forte e braço extenso, procurou um lugar próprio e que servisse de defesa para o seu Condado e apropriado para prejuízo dos seus inimigos. Encontrou, por isso, aquele monte num lugar de vasta solidão, situado nas proximidades de Santarém e de Coimbra, distante do Castelo de Santarém umas quarenta milhas e cerca de cinquenta do Castelo de Coimbra. Primeiramente construiu aí um Castelo e colocou nele, habitantes, como chefe pôs-lhes um valente Cavaleiro, de nome Paio Guterres. Por isso a força e a audácia dos Sarracenos, por intermédio deste, começou a enfraquecer, porque na verdade viam outro Cipião Africano que os esmagaria, esfrangalharia e sujeitá-los-ia como a palha sob os malhos na eira.

Era de 1175:  Aconteceu um infortúnio aos Cristãos em Tomar.

Era de 1177:  A 25 de Julho na festa de S. Tiago Apóstolo, no undécimo ano do seu Governo, o mesmo Infante D. Afonso travou uma grande Batalha com o Califa dos Sarracenos, de nome Esmar, num lugar que se chama Ourique. Efectivamente aquele Califa dos Sarracenos, conhecendo a coragem e a audácia do Infante D. Afonso, e vendo que ele frequentemente entrava na terra dos Sarracenos fazendo grandes depredações e vexava grandemente os seus domínios, quis se fazê-lo pudesse, travar Batalha com ele e encontrá-lo incauto e despercebido em qualquer parte. Por isso uma vez, quando o Infante D. Afonso com o seu Exército Condal entrava por terras dos Sarracenos e estava no coração das suas terras, o Califa Esmar, tendo congregado grande número de Mouros de além-mar, que trouxera consigo e daqueles que moravam aquém-mar, no termo de Sevilha, de Badajoz, de Elvas, de Évora, de Beja e de todos os Castelos até Santarém, veio ao encontro dele para o atacar, confiando no seu valor e no grande número do seu Exército, pois mais numerosos era ainda pela presença aí das mulheres que combatiam à laia de amazonas, como depois se provou por aquelas que no fim se encontraram mortas. Como o Infante D. Afonso estivesse com alguns dos seus acampado num promontório fortificado, foi cercado e bloqueado de todos os lados pelos Sarracenos de manhã até à noite. Como estes quisessem atacar e invadir o acampamento fortificado dos cristãos, alguns soldados escolhidos destes investiram contra os Sarracenos, combatendo valorosamente, expulsaram-nos do acampamento, fizeram neles grande carnificina e separaram-nos. Como o Califa Esmar visse isto, isto é, o valor dos Cristãos, e porque estes estavam preparados mais para vencer ou morrer do que para fugir, ele próprio se pôs em fuga e todos os que estavam com ele, e toda aquela multidão de infiéis foi aniquilada e dispersa quer pela matança quer pela fuga. Também o Califa deles fugiu vencido, tendo sido preso ali um seu sobrinho e neto do Califa Ali, de nome Omar Atagor.

Com muitos homens mortos também da sua parte, D. Afonso, com a ajuda da graça de Deus, alcançou um grande triunfo dos seus inimigos, e, desde aquela ocasião, a força e a audácia dos Sarracenos enfraqueceu muitíssimo.

É durante este episódio que Don Afonso é reconhecido pelo Exército Português, pelos seus Cavaleiros mais chegados e pela Nobreza Portucalense, como seu chefe e senhor e á maneira dos Godos, levantaram-no em cima do seu escudo e aclamado Rei dos Portugueses. Todos os homens gritaram pelo seu nome e saudaram-no como Rei e seu Senhor. A partir desta data o Infante intitula-se Rei de um Reinado independente. O Reino de Portugal.

Era de 1178: No ano primeiro do seu Reinado, o Califa Esmar, sabendo que o Rei D. Afonso estava além de Guimarães, perto de Tui nas partes da Galiza, e estava ali muito ocupado em alguns negócios de que não podia facilmente desembaraçar-se, animado pelo conselho de um dos seus oficiais que estavam em Santarém, de nome Auzecri, tendo juntado grande número de gente de Badajoz, de Évora e de Santarém, veio de repente e atacou o Castelo de Leiria e lançou-lhe o fogo, tendo matado aí alguns soldados e levando outros consigo em cativeiro. Também o Conde Paio Guterres, a cujo cuidado fora confiada a guarda do Castelo, foi aprisionado.

Ao mesmo tempo o Imperador D. Afonso VII, filho do Conde Raimundo da Borgonha e da Rainha D. Urraca, filha do grande Imperador D. Afonso VI, tendo reunido todo o seu Exército de Castela e Galiza, quis entrar no Reino de Portugal e vieram até um lugar que se chama Valdevez. Mas o Rei D. Afonso foi ao seu encontro com o seu Exército e ocupou o caminho por onde aquele queria vir, e armou as suas tendas, uns de uma parte e outros de outra. E como alguém viesse do lado do Imperador para provocar uma escaramuça que os populares chamam «Bufúrdio», imediatamente alguns saíam do lado do Rei de Portugal, indo ao encontro deles e, com eles, escaramuçando.

Estes prenderam o Infante Don Fernando Furtado, irmão do Imperador Don Afonso VII, o Cônsul Pôncio de Cabreira, o Conde Don Vermudo Peres e Varela, filho do Conde Don Fernando Joanes, irmão do Conde Don Paio Curvo, e o Conde Don Rodrigo Fernandes, pai do Conde Don Fernando Rodrigo, e o Conde Don Martinho Cabra, sobrinho do Cônsul Don Pôncio, e outros, muitos que com eles vinham. Por isso vendo o Imperador que tudo corria próspero ao Rei de Portugal e que uma boa estrela o guiava e que Deus o ajudava e que a si tudo lhe corria ao contrário, e que, se quisesse continuar a luta, maiores seriam os seus prejuízos, mandou enviados à presença do Arcebispo de Braga, D. João, e a outros homens bons e pediram-lhes que viessem ter com o Rei de Portugal para que fizesse e firmasse uma boa paz e para sempre. Assim aconteceu e chegaram a um acordo. Efectivamente numa tenda tanto o Imperador como o Rei de Portugal se beijaram mutuamente, comeram e beberam vinho, e falaram a sós secretamente e, assim, cada um deles retomou a sua paz.

Também na mesma ocasião, inesperadamente, vieram das partes das Gálias alguns navios cheios de guerreiros, no propósito de irem a Jerusalém. E, como tivessem chegado ao porto de Gaia e tivessem entrado no Rio Douro, o Rei ouviu esta notícia com que se regozijou. Efectivamente eram cerca de setenta embarcações, e com eles firmou o acordo de que aqueles se dirigiriam a Lisboa por mar, e ele com o seu Exército por terra e lhe poriam cerco. Talvez aprouvesse ao Senhor entregá-la nas suas mãos. E assim, feito esse acordo, dirigiram-se todos a Lisboa, aqueles por mar e o Rei com seu Exército por terra, cercaram-na e atacaram-na, mas nada puderam contra ela, porque ainda não chegara a ocasião de ser entregue às mãos dos Cristãos, mas atacaram os arredores, destruíram muitas vinhas, incendiaram as casas e fizeram grande dano naquela terra. Vendo então que não era fácil a sua tomada nem durante longo espaço de tempo, embora permanentemente cercada, pois estava bem fornecida de provisões, era muito populosa e não lhe faltavam animosos defensores, deixaram-na. O Rei voltou com o seu exército para a sua terra e aqueles marinheiros seguiram a sua rota para Jerusalém, para onde tencionavam ir.

Era de 1180: O mesmo Rei dos Portugueses D. Afonso começou a construir o Castelo de Germanelo, no terceiro ano do seu Reinado. Com efeito, vendo D. Afonso que os habitantes de Coimbra estavam aterrorizados e não ousavam sair para os seus trabalhos nos arredores, nas vilas de Germanelo, Alvor e Ateanha, por causa das frequentes incursões e depredações que, diariamente, ali faziam os Sarracenos, por tal motivo achou bem, fazer aquele Castelo no coração daquela terra, para segurança e defesa dos trabalhadores cristãos e para dano dos salteadores Sarracenos, colocou aí soldados que o guardassem e servissem de protecção e defesa aos Cristãos.

Pelo mesmo tempo levantaram-se os Ismaelitas contra os Moabitas, isto é, os Andaluzes contra os Árabes, e expulsaram-nos das suas Cidades e Castelos. Chegara já efectivamente o tempo em que o Senhor haveria compaixão do Povo Cristão e afastaria deles a sua ira que sobre eles lançara no tempo do Rei Rodrigo, por causa dos seus pecados e mandara contra eles os Sarracenos, para que destruíssem os Cristãos e ocupassem a sua terra. Agora, porém, o Senhor amerceou-se e tornou-se propício ao seu Povo Cristão, afastou dele a sua ira e lançou a sua espada entre os Ismaelitas e Moabitas, isto é, Andaluzes e Árabes, para aniquilar o seu Califado e destruir o seu poder e força, que contra os Cristãos prevaleciam.

Morto o Califa Herico, que estimava mais os Árabes que os Andaluzes, que antepunha aqueles a estes, e àqueles entregava os comandos, os Andaluzes, não podendo aguentar o jugo dele, porque era demasiadamente pesado e insuportável, os Andaluzes, todos, unanimemente se levantaram contra os Árabes e expulsaram-nos das Cidades e dos Castelos e, depois de expulsos, obrigaram-nos a sair da Hispânica e a passar para além-mar. Isto, porém, operava-se por obra da bondade divina, para aliviar os Cristãos e dilatar as suas terras. Desde que, na verdade, os Árabes passaram para aquém-mar e vieram à Hispânica por causa dos pecados dos Cristãos, estes passaram maus bocados. Mas o Senhor mandou a sua espada para o meio deles para destruir-lhes o seu Califado e fortalecer o Reino dos Cristãos que, até aqui, tinham sido espezinhados e humilhados. Depois que os tinham expulsado, o Rei de Portugal, D. Afonso, fortemente os devastava e assolava a terra daqueles guerreiros, humilhando-os e aniquilando-os. Por isso, contra vontade, vieram ter com ele e, prestando-lhe homenagem, pagavam-lhe tributo e o Censo das Cidades e Castelos de Santarém, de Lisboa e dos seus vizinhos, até que chegou o tempo de o Senhor entregar nas mãos dos Cristãos essas Cidades e Castelos.

Era de 1182:  O Rei de Portugal D. Afonso começou a reedificar o Castelo de Leiria no mesmo lugar em que primeiramente fora construído no quinto ano de seu Reinado.

Era de 1183: O mesmo Rei D. Afonso casou com a Condessa D. Matilde, filha do Conde Amadeu de Moriana e a esta se ligou em legítimo casamento no ano sexto do seu Reinado e dela houve três filhos e três filhas, uma das quais D. Urraca, depois casou com o Rei de Leão, D. Fernando II, outra, porém, casou-a com o Cônsul da Flandres. A outra morreu na sua juventude, dois dos seus filhos morreram, apenas ficou um o Infante D. Martinho, por sobrenome Sancho.

Era de 1185: O mesmo Rei de Portugal D. Afonso, no oitavo ano de seu Reinado, revestido de audácia e valor, atacou corajosamente, com alguns poucos dos seus, o Castelo de Santarém, confiado no auxílio divino e recuperou-o para si e para a Cristandade, tendo matado e expulsado dali os Sarracenos que nele habitavam. Por vontade de Deus se deu este acontecimento a 11 de Maio, ao cantar do galo, ao amanhecer de um sábado. E no mesmo ano, no mês de Julho cercou Lisboa. Em seu auxílio, e por obra da bondade divina que do alto céu a tudo provê, veio súbita e inesperadamente das partes das Gálias, e conduzido por mão divina, um grande número de navios. Grandemente confiado neste auxílio, cercou a cidade durante cinco meses, atacando-a e assaltando-a valentemente por terra e por mar, não permitindo que ninguém saísse ou entrasse. Finalmente, porém, a 24 de Outubro, numa sexta-feira, ao meio-dia, tomou a cidade na sua mão forte e extenso braço com o auxílio da piedade divina e ajuda do Senhor Jesus Cristo, tendo sido expulsos dali os Sarracenos.

E em épocas e anos diferentes tomou os fortíssimos Castelos de Sintra, Almada e Palmela, e com os seus guerreiros conquistou-os para si e para a Cristandade.

Naquele tempo aconteceu por obra do Senhor o milagre mais extraordinário de todos os que Deus operou no mundo por meio dos Reis antigos, seus servos. O Rei D. Afonso, com 60 homens de armas de Santarém, sem armadura alguma a não ser apenas os escudos, as lanças e as espadas, sem couraças nem capacetes, nem sapatos de ferro, confiado no auxílio de Deus e ajudado da bondade divina, lutou com 500 soldados Sarracenos bem armados e cobertos de ferro e bem instruídos no serviço militar e com quarenta mil peões bem armados, nos campos de Alcácer e venceu-os, matou muitos deles e outros fugiram para dentro da Fortaleza. Ele foi aí ferido pelos Sarracenos numa perna com uma lança. Em poucas palavras contarei como isso aconteceu.

Era de 1192:  Nasceu o Infante Sancho, filho do Rei D. Afonso e da Rainha D. Matilde na noite de S. Martinho, uma quinta-feira, e por isso no baptismo deram-lhe o nome de Martinho, e depois foi cognominado Sancho. Nasceu aos 26 anos de idade do pai.

Era de 1195: No mês de Setembro morreu o Imperador D. Afonso VII, filho do Conde da Borgonha D. Raimundo e da Rainha D. Urraca.

Era de 1196:  A 24 de Junho, segunda-feira, no dia de S. João Baptista foi tomado o Castelo de Alcácer pelo Rei D. Afonso. Já anteriormente lhe pusera cerco por duas vezes ajudado por grande número de navios que vieram das partes do Norte, isto é, da França e regiões vizinhas daquelas, mas Deus ainda não apartara deles, os infiéis, a sua comiseração. Agora, porém, já estava, completa a sua maldade e iniquidade, afastou deles a sua face e entregou-os às mãos dos Cristãos. O Rei D. Afonso cercou-o só com o seu Exército, durante quase dois meses, atacando-o valorosamente todos os dias, e no dia de S. João Baptista o Senhor entregou-lho, sendo dali expulsos todos os Sarracenos, no ano 19 do seu Reinado.

Era de 1196: A 3 de Dezembro, uma quarta-feira, às 9 horas, morreu a ilustríssima serva de Deus, a Rainha de Portugal D. Matilde, de preclara e nobilíssima linhagem, filha do muito famoso Conde Amadeu, esposa de Don Afonso, Rei dos Portugueses, para a qual haja verdadeiro descanso, Amem, no décimo nono ano do Reinado de D. Afonso.

Era de 1200: A 30 de Novembro na noite de S.to André Apóstolo, a Cidade de Pace, isto é, Beja, é assaltada de noite pelos homens do Rei de Portugal, D. Afonso, certamente o Cavaleiro Fernando Gonçalves e alguns outros soldados plebeus, e corajosamente é tomada e ocupada pelos Cristãos no ano 23 daquele Reinado.

Era de 1204: A cidade de Évora é tomada e saqueada de noite e ocupada pelo Chefe Geraldo, denominado Sem-Pavor, e pelos ladrões, seus companheiros, e entregou-a ao Rei D. Afonso. Pouco tempo depois o próprio Rei tomou Moura, Serpa, Alconchel e mandou reedificar o Castelo de Voruche, no ano 27 do seu Reinado.

Era de 1206: Aconteceu uma infelicidade ao Rei D. Afonso e ao seu Exército em Badajoz no ano 29 do seu Reinado.

Era de 1209: No mês de Agosto nasceu o Infante D. Afonso, filho do Rei Fernando II e da Rainha D. Urraca, neto do Rei de Portugal D. Afonso.

Era de 1212: O Infante D. Sancho casou com a filha de D. Raimundo, Duque de Barcelona, D. Dulce, irmã do Rei de Aragão, D. Afonso, no ano 35 do Reinado de seu pai.

Era de 1216: O Infante D. Sancho dirigiu-se a Sevilha com o seu Exército e entrou em Triana, antiga cidade de Sevilha, destruiu as muralhas desta cidade e saqueou-a no ano 39 do Reinado de seu pai.

Era de 1217: No mês de Outubro veio Iacube, filho de Elmunimo, Emir dos Sarracenos, e seu irmão Frocem, até junto do Castelo de Abrantes, com um Exército de tanta gente que ninguém podia contar. Cercaram o Castelo e assaltaram-no. Retiraram-se porém dali 4 dias depois com grande prejuízo do seu Exército, tendo sido mortos muitos dos seus soldados. Durante o cerco, por vontade de Deus, apenas nove Cristãos foram mortos. Aconteceu isto no ano 40 do Reinado do Rei D. Afonso.

Era de 1218: Vieram de novo subitamente sem serem esperados ao Castelo de Coruche e ocupando o destruíram, tendo matado ou levado em cativeiro todos os habitantes dele, no ano 41, daquele Reinado.

Era de 1222: No ano 45 do Reinado do Rei de Portugal D. Afonso, Iusef Abeujacob Emir Elmunimo segundo, Emir dos Sarracenos, filho de Ali Abelmuine, que foi chamado Califa do burro, porque, passeando sempre num burro era tido por todo o povo como profeta e santo, no ano 32 do seu Califado, depois que submetera os Califados da outra Banda e se apoderara das maiores regiões de além-mar, por exemplo, Gafsa e Gumera, que pertenceram ao Califa Ali, e de todo o Califado de Marrocos, e, no aquém-mar, de todo o Reino que pertencera ao Rei Lobo, por exemplo, Valência, Múrcia, Granada e das restantes Cidades e Castelos, que ao Rei Lobo foram pertencentes, vendo que ninguém havia que lhe pudesse resistir e porque o terror dele invadira todos os povos, até às partes orientais, encheu-se de orgulho e pensou vir à Hispânica e Reconquistar as Cidades e Castelos que outrora estiveram na posse dos Sarracenos, como Lisboa, Sintra, Santarém, Évora, Alcácer e muitos outros castelos, ou vir a Coimbra. E assim, subjugada finalmente toda a Lusitânia até ao Douro, subindo pela margem deste Rio, vir até Toledo e não desistir deste feito, embora o Rei da França, o Rei de Inglaterra, o Rei de Aragão, o Rei de Castela, o Rei da Galiza e o Rei de Portugal entrassem em pacto e o combatessem. E enquanto pensava nisto e estudava este plano com seus amigos, conselheiros e príncipes junto de si, enviou mensageiros a todos os Califas que havia além-mar e a todos os Califados ultramarinos para que todos viessem em seu auxílio e acorressem e ajudassem a congregar todos os esforços para destruir a Cristandade e exaltar e glorificar os da sua fé, prometendo que daria abundante e suficientemente a todos, que a ele se juntassem, víveres e mantimentos e todas as coisas necessárias para um ano. Ouvindo isto todos, com excepção de todo o seu Exército de Marrocos, juntaram-se-lhe o Exército de Cúmia, o Exército do Algarve, o Exército de Guma, o Exército de Cenhega, o Exército de Umivener, o Exército de Vinihuhialgar, o Exército de Chinierne, o Exército de Hela, o Exército de Héscora, o Exército de Henchega, o Exército de Harga, o Exército de Henchegar e de muitas outras terras e províncias que não posso enumerar. Ainda também um outro Exército, grande e forte, e bem instruído, veio em seu auxílio, assim como muitos Califas, o Califa Auzchi de Abde Arrahmane, o Califa Azum, irmão daquele, o Califa Hecie Aben Musa, o Califa Abuzach, o Califa Ismael e Abenjusef, irmão daquele, Abde Arrahmane Califa de Zuz, Zoleima e Aburabe, Califa de Chedala e o Califa de Búgia. Todos estes Califas do ultramar prepararam também muitos navios de guerra e de carga trazendo armas, trigo e máquinas para escavar as muralhas e transpô-las. Mandou também cartas e mensageiros a seus filhos que estavam aquém-mar, isto é, a Abozac, que era Califa de Sevilha e Abdacu Abvialne, que era Califa de Córdova e Abdarrhama Abuzeide que era Califa de Granada, e a Gamo, que era Califa de Múrcia e de Valência, que todos se preparassem para a Batalha e, no dia em que ele atravessasse o mar e chegasse a Sevilha, que todos igualmente se lhe juntassem, e marcou-lhes o tempo e o mês. Como tudo aquilo que havia de ser necessário a todo o Exército estivesse pronto de um lado e do outro, os navios preparados e todo o Exército dos que vinham de partes diversas estivesse já igualmente congregado, o próprio Emir dos Sarracenos Emir Elmunimo lucef Abenjacob, subindo para os navios com todas as suas tropas passou o piar e chegou a Sevilha. Também Jacob, filho daquele Abenjucef, que depois dele havia de ser Califa, a quem ele deixaria todo o seu Império depois da morte, veio com ele, e outro filho Abozabz, que era Califa a quem fez senhor não só do Algarve, mas também de todos os Árabes, tendo-se juntado todos em Sevilha, isto é, os que vieram de além-mar e aqueles que se lhe tinham juntado de aquém-mar. Não se quis demorar aí mais tempo, mas imediatamente construiu o acampamento, temendo que os Cristãos, sabendo disto, preparassem agora as suas Cidades e Castelos para resistirem. Não quis por isso dar-lhes tempo para levantarem muros, aprovisionarem víveres, ou construírem máquinas, mas vinham com rapidez, vinham em tão grande número e tantos como as estrelas do céu e, como se julgava, mais que a areia do mar, que se não pode contar por ser tal a quantidade. O próprio Emir Elmunimo passara vista nos livros das crónicas de todos os Califas Sarracenos, que houve antes dele e vieram à Hispânica desde o tempo em que primitivamente aí vieram e muitas vezes a assolavam, e tendo contado o maior Exército daqueles que a tinham invadido até aos Alpes, ele julgava que tinha consigo um exército muito maior, trazendo com ele mais de 78 mil homens. Efectivamente era enormíssimo e forte o seu Exército, ocupando montes e vales e toda a superfície da terra, cujo número só Deus, que pode contar as gotas da chuva, poderia conhecer.


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