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segunda-feira, julho 27, 2015

O Leão dos Mares da Ásia-Afonso de Albuquerque (I)

I) A ROTA DA ÍNDIA

A Armada de 1503


A 6 de Abril de 1503, quatro navios, franqueavam a barra do Tejo. Pífaros e tambores haviam-se calado e estavam depostos os címbalos que tinham ritmado as manobras da partida. Empoleirados em filas na mastreação, como pássaros, os marinheiros eram invadidos pela cadência do mar, onde aos poucos, se apagava o eco das festas. Horas antes, toda a população de Lisboa acompanhava os navegadores até à pequena igreja de Nossa Senhora do Restelo, no lugar onde hoje se ergue o Mosteiro dos Jerónimos. Fora rezada missa solene em presença do Rei D. Manuel I de Portugal e da corte. As tripulações haviam já sido benzidas as bandeiras são entregues aos capitães, a seguir, cada um subira a bordo, depois de ter beijado a mão do Rei. Com os escudos brasonados presos às amuradas, os navios tinham descido o rio ao som da música, seguidos por uma multidão em lágrimas, que entrava na água para ver o máximo tempo possivel aqueles de quem não se ousava esperar o regresso. Era a quinta expedição que o Rei D. Manuel I enviava à Índia. Desde 1498 ano em que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, todos os anos tinha sido armada uma frota com tripla missão; carregar especiarias, encontrar os Cristãos da Ásia, e fazer o reconhecimento das novas terras. A bordo do ‘Santiago’ a nau capitânia, Afonso de Albuquerque tomava pela primeira vez a rota do Oriente. Apesar de já ter ultrapassado os quarenta anos, o seu entusiasmo era imenso, a ponto de ter conseguido que os seus navios, fossem os primeiros a partir naquele ano. Duas outras deveriam segui-los; a de seu primo Francisco, que iria embarcar uma semana mais tarde, e a de António de Saldanha, incumbido de perseguir os navios árabes na entrada do mar Vermelho. O ‘Santiago’ vogava à cabeça da frota, de conserva com o ‘Santo Espirito’, o ‘São Cristóvão’ e um pequeno navio pertencente a Catarina Dias de Aguiar, mulher de negócios de Lisboa. Esta frota, que a fortuna destinaria aos combates tinha sido armada para o comércio, tanto pelo Rei como pelos financiadores, italianos na maior parte; os florentinos Girolamo Sernigi e Bartolomeo Marchionni, que apostaram no avanço naval dos Portugueses para explorarem, os mercados de além-mar e sem dúvida também, Gianfrancesco Affaitadi de Cremona e o genovês António Salvago. A filial de Bruges da companhia Gualterrotti e Frescobaldi delegara, a bordo do ‘Santo Espirito’, no jovem toscano Giovani de Empoli, que nos deixou a relação da viagem (testemunho precioso, em virtude do escasso número de fontes coevas chegadas até nós sobre as mais antigas expedições à Índia. De facto, a grande maioria dos documentos foi devorada pelo sismo que devastou Lisboa em 1775. Se é difícil identificar o tipo de navios da armada de 1503, já a natureza da missão e o cálculo da tonelagem que segundo G. de Empoli, o ‘Santiago’ tinha uma capacidade de 300 toneladas, o ‘Santo Espirito’ tinha 350 toneladas, o ‘São Cristóvão’ 150 toneladas e o navio de Catarina Dias 75 toneladas, permitem evocar uma frota composta por naus redondas e não por caravelas. Cascos castanhos-escuros e velas ruças no «Mar Tenebroso» como então era conhecido o Atlântico levavam castelo na proa e na popa, duas ou três cobertas móveis, dois mastros de velas quadradas e um outro de vela latina, na parte de trás. Iam armados de várias dezenas de bocas-de-fogo de todos calibres, desde os pequenos falconetes até às serpentinas, cães, camelos e esferas, cujo nome evoca a decoração do respectivo canhão.

Dos Palácios Reais aos Presídios de Marrocos


Albuquerque recebera o posto de capitão-mor de uma frota da Índia como recompensa de serviços prestados à Coroa, honra que devia partilhar com seu primo Francisco. O seu passado guerreiro fora praticamente a dos jovens nobres do tempo; uma infância vivida na corte do rei D. Afonso V (1432-1481), uma primeira campanha em Castela, participando na batalha de Toro em 1476, uma expedição naval a Itália, para levar socorro a Otranto cercada pelos Turcos em 1480, vários anos passados em Marrocos nas praças-fortes portuguesas de Arzila e Graciosa, longas estadas na corte de D. João II que fariam dele estribeiro-mor e oficial da guarda do rei. Podemos deduzir que realizou outras missões, marítimas neste caso, já que ele próprio afirmava ser tão competente como os melhores pilotos da frota real. E eis tudo, como pontos de referência para evocar a juventude de um dos maiores heróis da história portuguesa. A vida de Albuquerque apresenta-se-nos como paisagem mergulhada no nevoeiro, onde brilham tão-só alguns factos militares, uma paisagem que ganha claridade ao fim do dia, quando o sol ilumina os pormenores e alarga o horizonte. E assim encontramos em oposição a incógnita de um passado e a notória riqueza de uma correspondência, felizmente conservada, para os últimos dez anos da sua vida. Ainda que se tenham perdido os vestígios do baptismo de Albuquerque, podemos situar o seu nascimento por volta de 1460 (uma carta ao rei D. Manuel de Cochim em Abril de 1512, ele próprio dizia ter cinquenta anos. Este número pode ser interpretado como significando ‘na casa dos cinquenta’), talvez em Alhandra, nos arredores de Lisboa, na quinta do Paraíso, de que o encontramos proprietário em 1497. Afonso era o segundo filho de Gonçalo de Albuquerque, senhor de Villaverde, e de D. Leonor de Meneses, que pertencia a uma das mais nobres famílias do reino. Foi pela linha feminina que teve a ascendência mais ilustre. Gonçalo de Albuquerque usava ele próprio o nome da mãe, pois o seu patronímico sofrera desonra, através do pai João Gonçalves de Gomide, decapitado por ter morto a mulher. Tais violências familiares não eram raras na época e não lançavam opróbrio sobre a descendência. À sombra dos castelos reais, o jovem Afonso fora educado nas tradições da cavalaria e cedo experimentara a carreira das armas. Esta rude aprendizagem não o deixava insensível às mudanças provocadas pelas ideias do Renascimento (e que então se introduziam na corte), nem aos relatos dos navegadores que descobriram o mundo. Aprendera a ler graças à liberalidade do rei D. Afonso V e era tido como perfeito conhecedor do latim. À semelhança dos seus primos Meneses, terá ele recebido o ensino de preceptores, grandes conhecedores da cultura antiga, que algumas famílias nobres faziam vir de Itália? É plausível que tenha ouvido contar feitos épicos de Alexandre e de César, e proezas navais de contemporâneos, seus. Como todas as crianças do palácio, sentiu o fascínio das visitas de capitães tisnados que alargavam os limites do Universo, trazendo pássaros e objectos estranhos. A partir do impulso dado aos Descobrimentos pelo infante D. Henrique (1394-1460), o ‘Navegador’, eles iam explorando incansavelmente as costas de África e assentavam aqui e ali altas colunas de pedra, gravadas com a cruz de Cristo e as armas de Portugal, marcos da sua passagem, os célebres ‘padrões’. As primeiras missões confiadas a Afonso de Albuquerque não tinham o prestígio das expedições longínquas, mas foram ricas de experiência pela sua diversidade. A vida de caserna nas cidadelas de Marrocos deu-lhe conhecimento, ainda que limitado, dos usos e crenças de um mundo islâmico, cuja amplitude viria a ser o primeiro a entender. Os anos passados na guarda real deram-lhe ocasião para se aproximar das grandes figuras do reino. Não é possivel, sabermos, a que ponto viveu no círculo dos íntimos do Rei D. João II o «Príncipe Perfeito», um dos maiores monarcas do seu tempo, cujas estratégias políticas pôde observar. Na corte tornou-se amigo de António Carneiro, secretário de estado, de D. Martinho de Castelo Branco, Conde de Vila Nova de Portimão e principalmente, de Duarte Galvão, conselheiro real, que viria, aliás a testemunhar-lhe uma fidelidade sem quebra. Ao longo de uma vida consagrada ao serviço de três reis, quase nada enriqueceu, porquanto, para além dos proventos de algumas terras, não tinha outros recursos senão «hum pedaço de tença que comprey por meus dinheiros» (carta a D. Manuel, Cochim 1514). O serviço do rei parece ter preenchido inteiramente uma juventude em que nem mesmo o casamento encontrou lugar. Ainda aqui, o silêncio recobre uma vida privada, da qual, nada permite imaginar, tenha sido austera. Albuquerque não escondia ter um filho natural, nascido, três anos antes da ‘africana’ Joana Vicente. De facto Joana Vicente é dada apenas como «mulher solteira ao tempo da sua nascença (de Brás de Albuquerque)» sem qualquer referência ao africanismo como seria de estilo, para dispensar esse ‘defeito’ de origem. A carta de legitimação cuja a amplitude não deixa duvidas e cujas cláusulas supridoras são as mais latas possível é completamente omissa quanto à miscigenação de Brás de Albuquerque e silenciosa quanto ao pai da mãe. A filiação vicentina permanece uma hipótese. Legitimado este Brás (Brás de Albuquerque obteve autorização ao Rei para usar também o nome do pai), foi seu herdeiro e o primeiro biógrafo. Teve Afonso outros filhos bastardos que não reconheceu? Podemos interrogar-nos sobre a filiação de uma tal Chimena, a quem dotou testamentariamente (Testamento de Afonso de Albuquerque), e fez desposar na casa da Duquesa de Bragança. Embora não isenta de honras desde o começo, a carreira de Albuquerque não lhe oferecera ainda ocasião propícia a cumprir uma tarefa à sua medida. Os anos não haviam alterado ainda as suas próprias forças, mas sabia que o tempo lhe estava contado. O desejo de se antecipar à esquadra de Francisco testemunha vontade firme de agarrar a oportunidade de, enfim, tomar a iniciativa de uma obra que seria a sua. E apenas sete anos fulgurantes lhe bastariam para criar, do Golfo Pérsico ao mar da China, um império português na Ásia. Realidade que ultrapassaria, no espaço e no tempo, todos os sonhos de glória dos jovens capitães que levava na sua esteira.

O Quotidiano na Armada da Índia


A armada vogava em direcção a cabo verde, seguindo uma rota bem conhecida, já meio século havia. Quando o mar estava calmo, era a única parte agradável da viagem, duas semanas durante as quais se conheciam os chefes, os companheiros de aventuras e as atribuições de cada um. Logo que entraram no alto mar, Albuquerque apresentou-se aos seus homens para lhes lembrar as regras de sobrevivência. Era para todos, o momento de observarem o chefe supremo. De estatura média, magro e vivo, o capitão-mor tinha olhos penetrantes e uma voz imperiosa que sabia utilizar para exortar ou para convencer. Não trazia ainda, sem dúvida, a barba que iria ostentar mais tarde, comprida até à cintura, aliais, Afonso desde a saída de Lisboa nuca mais fez a barba, e que foi certamente bem incómoda para travar batalha. Em 1503, aquela moda ainda não estava implantada. Foi através do Papa Júlio II que foi Papa de 1503 a 1513, que a moda da barba comprida se espalhou pela Europa, moda bem acolhida pelos navegadores que raramente faziam a barba em alto mar, por razões óbvias. Nesse tempo, em Portugal, a barba comprida significava, muitas vezes, sinal de luto. Quando D. João II morreu, o Conselho da cidade de Lisboa, proibiu a todos os barbeiros que fizessem a barba fosse a quem fosse durante seis meses. Albuquerque vestia, como era hábito nos últimos anos de século XV, calções com meias e gibão e trazia boina redonda de veludo bordado, a cobrir os cabelos cortados por altura das orelhas. Parecia já de certa idade aos olhos de outros navegantes que, em geral, não atingiam os trinta anos. Os adolescentes constituíam legião e não eram raras as crianças vindas com o pai para fazerem a aprendizagem do mar ou das armas. Albuquerque exercia direito de justiça capital sobre todos os homens da armada, pelo conselho dos capitães e pilotos, sem os quais não podia decidir quanto à oportunidade de um combate ou à escolha de uma campanha. Senhor do seu navio, cada um dos capitães só dependia do capitão-mor. Era rodeado pela comitiva, fidalgos da família ou servidores originários dos seus domínios. Tinha a cargo a disciplina e comando dos homens de armas, lanceiros, archeiros e besteiros; na época, uma centena por navio. Os bombardeiros eram recrutados na Flandres e na Alemanha. Os homens de armas não participavam nas manobras, permaneciam em reserva para a hora do combate, em terra como no mar. Alguns capitães da frota nunca tinham visto senão água do Tejo, e então o piloto era o verdadeiro mestre da navegação. Coberto por uma capa de veludo negro, a grande personagem dispunha da cabine mais espaçosa, onde se guardavam os astrolábios, quadrantes, mapas e o diário de bordo, que ia redigindo todos os dias. Tinha poder absoluto na condução da frota embora atendendo às decisões do conselho e ao aviso dos pilotos árabes ou indianos que contratava para seguir a rota em mares desconhecidos. Segundo as ordens dele, o mestre dirigia os marinheiros de ofício. Os navios eram divididos em quatro partes, ficando cada uma à responsabilidade de um quarto da tripulação. Em redor dos especialistas, movimentavam-se os grumetes, jovens marujos sem qualificação, recrutados quase sempre entre marginais e órfãos entregues a si próprios. Realizavam as tarefas inferiores, lançavam o cordame davam às bombas, serviam os marinheiros. Era-lhes proibido trepar à mastreação, ignoravam o mar de tal forma que era necessário pendurar réstias de alhos e de cebolas a bombordo e a estibordo para se orientarem. A mortalidade era tão elevada que, para cada trabalho na manutenção de um navio, se contavam, sempre duas pessoas. Carpinteiros, calafates, cordoeiros, ferreiros, tanoeiros, eram obrigados a reservar os seus talentos para as frotas reais, qualquer serviço para o estrangeiro era punido com quatro anos de exilio, numa ilha inóspita do Atlântico. A diversidade de funções no espaço restrito de cada navio não deixa de surpreender. Também os músicos tinham lugar próprio; trombetas e címbalos, saudavam a entrada nos portos e reanimavam as forças dos manobradores enquanto um tocador de pífaro tocava mansamente, à noite junto do timoneiro, para o impedir de adormecer. Raramente havia médico e não se encontra nenhum na esquadra de Afonso de Albuquerque. O barbeiro fazia sobretudo ofício de cirurgião, pois racionava-se tanto a água doce que a barba só era feita nas escalas e mesmo ai, em breve se perdeu o hábito. Competia aos religiosos tratar dos doentes e distribuir-lhes a comida reservada para eles. Dominicanos e Franciscanos partilhavam o serviço dos ofícios e sacramentos, a bordo como em terra. A sua missão de proselitismo junto dos não-cristãos não estava ainda definida. De estatuto bastante inferior, alguns cativos marroquinos convertidos faziam ofício de intérpretes, tal como Gonçalo Madeira de Tânger, que em breve, se revelaria indispensável, pois o árabe era língua franca do oceano Índico Ocidental. Ainda mais baixo na hierarquia, encontravam-se os degredados, criminosos de delito comum, a quem se dava oportunidade de escapar à forca se realizassem com eficácia as missões mais perigosas. Cada nau tinha um feitor que assegurava a administração. Junto dele, o escrivão acumulava as funções de secretário de bordo e guarda das chaves do armazém de víveres. A gestão das rações alimentares não era fácil num itinerário ainda mal conhecido, em que o acesso a pontos, de reabastecimento, muito afastadas uns dos outros, ficava à mercê de uma tempestade ou de um acolhimento hostil. A água doce fora armazenada em caixas endurecidas com pano revestido de breu ou em tonéis agrupados à volta do mastro grande, e que tinham de ser novamente cheios em cada escala. Para não comprometer o equilíbrio do navio, deitava-se água do mar nos tonéis vazios, o que espalhava no vasilhame um gosto tão salobre que só era possivel alguém matar a sede, tapando o nariz. O vinho era distribuído segundo regras bem claras, os homens de mar recebiam todas as manhãs, uma canada para o dia inteiro, isto é, pouco mais de um litro, os homens de armas menos sujeitos à fadiga, tinham de se contentar com metade. Os notáveis de bordo geriam a sua própria reserva, seis tonéis para a viagem do feitor e três para os outros. Quando tudo corria, a alimentação era abundante. Carregava-se a carne ainda viva; carneiros, cabras, aves de capoeira embarcavam com a tripulação. Matavam-nos à medida das necessidades. A ração média atingia um arrátel (450g) por dia e por boca, juntando-se igual quantidade de biscoito. Cada um recebia a sua reserva mensal deste modo; um litro de manteiga, um arrátel de açúcar, meia canada de vinagre e outro tanto de azeite. Não havia cozinheiro a bordo. Fidalgos e notáveis tinham criados próprios, os outros desembaraçavam-se conforme podiam, à volta de fogareiros de barro cheios de fumo e vermelhos de brasas. O lume era objecto da mais estrita vigilância, não se podendo nem deixar apagar nem espevitar de mais. As rixas desencadeavam-se quase sempre à hora das refeições, sobretudo quando os mantimentos iam já faltando ou começam a deteriorar-se. Tal era o caso quando, depois da escala de Cabo Verde a frota se via presa nas calmarias do golfo da Guiné. Para lhes escapar, era necessário procurar o vento alísio que soprava para oeste. Durante alguns dias, talvez semanas, o calor equatorial abatia-se sobre as cobertas, onde as velas pendentes já não davam sombra. Tinham então de se aguentar com peixe seco e carne salgada. O azeite começava a ficar rançoso, o mel e a marmelada a fermentar. Que fazer em tais momentos para distrair as tripulações, a quem a saudade ia tomando? Como os jogos de cartas e de azar estavam proibidos, disputava-se um lugar nos tabuleiros de xadrez. Os capelães organizavam concursos de orações para as quais um copo de água era a mais alta recompensa. À noite Juntavam-se todos para ouvir a leitura da Bíblia ou da Vida dos Santos, à luz da única vela acesa perto do cabrestante. Alguns tinham levado os próprios livros, versos profanos, narrativas de cavalaria cuja divulgação era quase tão desaconselhada como os romances galantes que circulavam às escondidas. Albuquerque seguia alojado no castelo da popa, em companhia do piloto e outros notáveis, os homens de armas e marinheiros amontoavam-se debaixo das cobertas com os animais. Imaginam-se facilmente as consequências de uma tal mistura e a rapidez na propagação de doenças.

A Volta do Brasil


Ao largo de Cabo Verde, Afonso de Albuquerque ouviu o conselho dos capitães e decidiu fazer vela para o sul em direcção à ilha de Ascensão, descoberta meses antes por João da Nova, no regresso da Índia. Depois de vinte e oito dias de navegação, aportaram à ilha, apenas o tempo de tomar água e lenha. Seguindo o alísio, entraram no oceano Austral, descrevendo uma larga curva que tocava ligeiramente nas costas da América do Sul e seguia, depois, para o cabo da Boa Esperança, o qual tinha de ser dobrado antes de meados de Julho. Era este o limite para se aproveitar a monção de sudoeste que levava os navios às margens da Índia. Foi realizando este movimento que Pedro Álvares Cabral descobriu em 1500 a terra do Brasil e seus habitantes. Vogando para o Novo Mundo, Albuquerque interrogava-se sobre a incógnita de um universo cujos limites se estendiam dia a dia. Não tinham passado ainda quinze anos desde que Bartolomeu Dias abrira o oceano Índico aos Portugueses, ao dobrar o cabo da Boa Esperança, e que o navegador Cristóvão Colombo encontrara a oeste do Atlântico terras novas, cuja, a extensão não era possivel entrever. Um mapa, desenhado no Outono de 1502 permite-nos visualizar o mundo então conhecido. Já largamente difundida pela impressão, a cartografia da época reflectia em geral a concepção dos humanistas, fiéis à imagem legada por Ptolomeu e seus émulos que tinham representado terras para Oriente sem fazer ideia da extensão real dos oceanos. O resultado das navegações recentes quase não havia alterado o traçado dos geógrafos alexandrinos de quem ainda se não ousava contestar os dados. Bem diversos eram os conhecimentos dos pilotos que nada divulgavam das suas experiências, a despeito da curiosidade do público erudito, um pouco por todo lado na Europa e sobretudo em Itália. E assim, em Novembro de 1502, Alberto Cantino, mercador de cavalos e agente secreto do Duque Hércules de Este, escrevia de Roma ao seu senhor que tinha conseguido em Lisboa, pela soma de doze ducados, uma carta de navegação digna de o satisfazer. As circunstâncias clandestinas das respectivas negociações deixam na sombra os documentos de que dispunha Cantino. Não há dúvida nenhuma de que estes foram copiados dos portulanos, roteiros e instruções náuticas guardados num anexo do palácio real, onde os cartógrafos elaboravam um esquema, do universo dado a público, à medida que a experiência dos navegadores ia permitindo definir a linha dos continentes. Graças a esta «fuga», podemos ter uma ideia dos conhecimentos geográficos dos descobridores portugueses, ao tempo em que Albuquerque aparelhava em direcção à Índia. O planisférico de Cantino, que hoje podemos admirar na Biblioteca Estense de Módena, marca uma ruptura com as tradições antigas e medievais. Pela primeira vez, são reconhecidos os limites do oceano Índico. Temos sem dúvida, de separar o que foi experiência directa de meras conjecturas. É muito nítida a diferença entre a correcção do desenho das costas realmente vistas e observadas pelos Portugueses e o esboço imperfeito das outras regiões, certamente marcado a partir de mapas marítimos Árabes. Se as costas setentrionais do Brasil aparecem desproporcionadas, as da África e a entrada do Mar Vermelho estão quase conformes à realidade, e opõem-se ao leve traçado de uma Ásia apenas esboçada mas já bem no seu lugar, o litoral da Índia apresenta-se ainda recortado de modo fantasista e a península da Malásia informe e desmensurada. Parece que este traçado do mundo tinha ficado em suspenso, pronto a ser aperfeiçoado de cada vez que o avanço dos Portugueses permitia obter novas certezas. Iniciado nos segredos da câmara dos mapas, Afonso de Albuquerque entendera-lhes as perspectivas e o alcance. A «volta do Brasil» conduzia o herói aos limites do espaço que as bulas pontificais tinham atribuído à expansão portuguesa. Embora ainda não se soubesse calcular as longitudes uma linha meridiana fora traçada a este das terras descobertas por Colombo, deixando aos Castelhanos a liberdade de se expandirem para além, enquanto os Portugueses deviam manter-se aquém. Esta divisão permitiu-lhes integrar a costa oriental do Brasil nos seus domínios. Mas que mundos se esconderiam atrás daqueles territórios que ninguem ainda podia imaginar serem continentes? Não se fazia ideia da imensidão do Pacifico e nada trazia luz à vasta zona de sombra que se estendia do Malabar ao arquipélago das Antilhas. Julgava-se o Cataio e as ilhas das especiarias próximas do Novo Mundo. O protocolo do tratado de Tordesilhas reflecte aquelas incertezas, em 1494 Castelhanos e Portugueses acomodaram-se a uma partilha virtual do universo, a partir do meridiano do Atlântico sem dizer palavra sobre o meridiano do lado oposto. Os Portugueses não tinham prestado atenção aos limites não formulados, certos de virem a ser os primeiros a tocar nos mercados de especiarias das Índias Orientais, seguindo o contorno de África, enquanto os Castelhanos persistiam na busca da passagem que permitiria atingir aqueles mercados através das ilhas do Novo Mundo. Assim pela rota do Levante como do Poente, o oceano Índico era o único objectivo dos Descobrimentos, espaço marítimo ainda indeciso onde o mercador florentino Girolamo Sernigi (apesar de estar bem informado) confundia o arquipélago das Maldivas com o das Antilhas (carta de Girolamo Sernigi, de Lisboa, 10 de Julho de 1499). Afonso de Albuquerque não ignorava que as realidades da geografia dariam a Portugal o espaço tão invejado na condição de o país não se encontrar diante do facto irreversível de qualquer navegação castelhana. Mesmo tendo a expedição de Albuquerque objectivo mercantil, inscrevia-se num período de prospecção intensa e, apesar de o litoral da Índia já ter sido em parte reconhecido, era imperioso vencer rapidamente as frotas rivais, procurar novos mercados e estender os limites sempre mais longe, no sentido do longínquo meridiano da Ásia oriental. Deste modo se tornava possivel o sonho de atingir em alguns meses a outra extremidade da terra, quando se chegava à costa do Brasil, no lugar já antes chamado de Vera Cruz por Cabral, na actual província da Baia. Giovanni de Empoli maravilhara-se com a beleza dos indígenas, nus, pintados até à cintura, eriçados de penas de papagaio e de lábios perfurados com espinhas de peixe, as quais armavam também as pontas das flechas. Alimentavam-se de carne humana fumada «como fazemos com a carne dos porcos» como relata Giovanni, e acolhiam sem hostilidade, aqueles navegadores estranhos que os ventos conduziam periodicamente até às suas costas. Depois da escala de Vera Cruz, a volta do Brasil descrevia larga curva para sudeste em direcção a África Austral. A passagem do cabo da Boa Esperança, era prova arriscada e cuja perspectiva despertava inquietação nas tripulações e a vigilância dos comandantes. As condições do quotidiano a bordo, tinham-se agravado ao longo do extenso trajecto nos trópicos. Febres e disenteria haviam dizimado os efectivos. O escorbuto começava a fazer devastações, e ainda se estava longe de colher as laranjas da África Oriental, cujas virtudes de cura tinham sido descobertas recentemente. A angústia crescia com o aproximar da zona de tormenta, quando o céu carregado escurecia o mar, todos os dias, um pouco mais. As procissões caminhavam nas cobertas para esconjurar as tempestades, e os capelães celebravam missas «secas», isto é, sem vinho para evitar que se derramasse, no caso de o cálice se virar depois da consagração. Na desordem dos elementos, era vital não se perderem de vista. Os mais antigos regulamentos conhecidos da rota da Índia datam de 1504, mas é provável que práticas anteriores ai tenham sido registadas. Por exemplo o ‘Santiago’, que seguia à frente, devia emitir sinais; dois tiros de bombarda, para virar de bordo, três tiros para tirar a moneta (acrescento de pano que se põe nas velas principais quando há pouco vento), quatro tiros para ferrar as velas. As ordens eram repercutidas de bordo em bordo. À noite, fogueiras acesas na popa substituíam as salvas. Entre cada manobra o farol da capitânia guiava o resto da frota que vogava na escuridão, à frouxa luz da única vela autorizada na cabine de cada um dos capitães. Além disso, sempre que se voltavam as ampulhetas, eram emitidos dois tiros de bombarda em sinal de concentração e cada navio devia responder da mesma forma. O cabo da Boa Esperança foi dobrado em 6 de Julho de 1503. Para evitar serem apanhados no turbilhão das correntes e despedaçarem-se contra essas arestas temíveis, foi necessário contorná-lo pelo sul, a duas léguas da terra aproximadamente, navegando ao acaso entre gelados nevoeiros do mar austral. Desequilibrados pela geada que pesava nos cimos, os navios dispersos correram à deriva durante vários dias, com todas as velas recolhidas. A frota reencontrou-se a este do Cabo, na aguada de São Brás, marcada por uma capelinha levantada por gente que já tinha vencido a prova. Todos os navios estavam a salvo, mas contavam-se os sobreviventes, chorando os pobres companheiros cujos dedos gelados não tinham podido segurar os cordames e haviam sido engolidos pelo Oceano. Reparando velas e cordame, todos davam graças a Nossa Senhora. Reanimavam a sua coragem olhando as águas verdes de um outro oceano, onde irmãos cristãos desconhecidos iriam partilhar com eles as riquezas da Índia. Para já, era necessário satisfazerem-se com a presença de Africanos que inspiravam a maior repugnância a Giovanni de Empoli e que só procuravam para trocar bovinos por chocalhos, à razão de um guizo por vaca. Afonso de Albuquerque esforçava-se por não tardar para além do tempo imprescindível à reparação dos navios e das forças da tripulação. Deu ordem para aparelhar em direcção ao norte e navegar ao largo das costas da África Oriental até Sofala, a cidade do ouro, onde os Portugueses já se tinham estabelecido e construído uma fortaleza.

As Índias Orientais-Da Lenda à Realidade


Ao penetrar nas águas do oceano Índico, o capitão-mor tentava evocar o mundo que se abria diante dele. Atravessado o Atlântico, cuja navegação de alto mar era feito único dos Europeus, estava bem consciente de irromper numa vida marítima, organizada, desde vários séculos, à volta de tráfegos que se estendiam por um espaço incomensurável. Tentava pôr ordem nos problemas que o assaltavam desde a partida e, sobretudo, dominar a multiplicidade de respostas. Na verdade, os homens da sua geração eram os primeiros a enfrentar a onda de informações de todo género que a tipografia fazia transbordar sobre a Europa. O saber acumulado durante séculos espalhava-se de repente, misturando-se todas as épocas. Em que se devia acreditar da Índia descrita pelos companheiros de Alexandre, e ainda mais por Plínio o Antigo, face às narrações dos navegadores que todos os anos iam trocar pimenta pelo ouro do Império Romano? Que se poderia reter das congeminações de Isidoro de Sevilha e dos enciclopedistas medievais recentemente editados? Que Haveria de real sobre aqueles homens de cabeça de cão e esses outros sem cabeça, os olhos abrindo para os ombros e a boca sobre o peito, ciclopes e monopódios, cujo pé, de tão grande, funcionava de guarda-sol? Seria a Índia povoada por aquelas reças diabólicas cuja imagem os gravadores tinham gosto em difundir? Giovanni de Empoli pelo contrário, esperava ir lá encontrar o jardim do Éden cuja localização se marcava pelo Cruzeiro do Sul, as quatro estrelas evocadas por Dante, num terceto que ele gostava de citar «voltei-me á mão direita e pus a mente / no outro polo, e ai vi quatro estrelas / vistas apenas da primeira gente. ‘Dante Aligieri - A divina comédia’». Terra de demónios ou Paraíso perdido? Pouco importava. A Índia estava igualmente povoada de cristãos que se reclamavam ser seguidores do apóstolo Tomé, como haviam testemunhado peregrinos de séculos passados. O dominicano Jourdain de Séverac fora mesmo enviado ao Malabar em 1329 para ser bispo de Caulão. Guardara-se a memória de tais viagens por via terrestre nelas, comerciantes, aventureiros e religiosos caminhavam juntos, seguindo as caravanas que levavam mercadores genoveses, do Mar Negro à Pérsia e por vezes mais longe. Albuquerque sabia que viria a pertencer aos Portugueses fazerem entrar na realidade dos países até então lendários e dissipar as fantasmagorias que povoavam ainda a imaginação das tripulações. Por isso ele se prendia sobretudo à experiência vivida por gente real, cujas narrações formavam o contraponto da tradição escolástica. Fizera a escolha o impressor Valentim Fernandes no Outono de 1502 ao publicar em Lisboa fragmentos da viagem de Marco Polo e dos relatos do veneziano Nicolo dei Conti e do genovês Girolamo do Santo Stefano que tinham, ambos visitado a Índia e a actual Birmânia durante o século XV. Aliais o filão da tradição oral tecia um feixe de informações vindas do Magrebe e das escalas venezianas dos Balcãs veiculadas por comerciantes italianos de passagem por Lisboa, pelos negociantes judeus e árabes encontrados em Marrocos ou fugidos de Granada. A ciência deles era inteiramente comercial, alimentada pela prática dos mercados do Egipto e do Levante, onde se negociavam as especiarias. Nos meses que precederam a partida, Albuquerque tinha sido instruído com relatórios mais, secretos, reservados ao círculo privado do Rei D. Manuel. Na véspera de realizar a última etapa da viagem, o capitão-mor nunca deixava de rever em pensamento os últimos feitos dos seus antecessores. Vasco da Gama descobrira a rota para a Índia através dos caminhos livres do Atlântico, mas esta vitória sobre o espaço não foi suficiente para mascarar a amargura do acolhimento decepcionante recebido em Calecut. Viera ali à procura de «cristãos e especiarias» como declarara o degredado que foi enviado em reconhecimento. Encontrou a cidade povoada de muçulmanos de todas as nações que, longe de admitirem as suas proezas navais, ridicularizaram os presentes rústicos que oferecia ao Rei; algumas peças de pano às riscas, seis capas de capuz, potes de mel e de azeite, quatro ramos de coral, quando o monarca oriental só aceitava ouro e pedras preciosas. Devido às lendas da época medieval, Vasco da Gama tinha pensado que o soberano era cristão. Os ritos do hinduísmo pareceram-lhe expressão de qualquer cristianismo exótico, a tal ponto que rezava às deusas do templo como se fossem imagens de santas, embora tenha estranhado a sua nudez. Se não conseguiu trazer a Lisboa mais do que alguns sacos de especiarias, trazia em contrapartida, preciosos informadores. O mais eloquente de todos era um judeu polaco cujos pais tinham fugido às perseguições da Europa Oriental, para tentar fortuna na Índia. Veio a ser afilhado de Vasco da Gama, que, depois de o capturar o mandou baptizar com o nome de Gaspar. Graças a ele, o esquema da rota das especiarias alargava-se e ganhava em precisão. Mas Gaspar não desmentia a fé numa Índia cristã, aliara o seu destino à fortuna de Portugal, cuja empresa não queria desencorajar. Logo no ano seguinte, com todas as guarnições embandeiradas a armada de Pedro Álvares Cabral fizera a sua entrada no porto de Calicut. Embora começadas sob auspícios felizes, as relações tornaram-se tensas em pouco em pouco tempo. O Samorim (rei) de Calicut não tinha pressa em arbitrar os diferendos que surgiram entre portugueses e mercadores do mar Vermelho. Uns e outros arrogavam-se o direito de serem os primeiros a carregar os porões. A crise rebentou em Dezembro, quando Cabral capturou um navio árabe e deu assim origem ao ataque a um entreposto português e ao massacre de cerca de quarenta homens, no momento em que estes fugiam para os seus navios. Como represália a armada alinhou-se ao longo da costa e bombardeou a cidade durante todo o dia. O trágico incidente, cujas consequências iriam fazer-se sentir por vários decénios, não deixou de regozijar os portos rivais de Calicut. O rei de Cochim oferecera o abrigo do seu esteiro à frota de Cabral e permitiu-lhe a instalação de alguns homens que deviam juntar um carregamento de especiarias, enquanto esperavam a chegada de João da Nova, capitão-mor da expedição seguinte. Este não se demorou no Malabar, tendo passado a maior parte do tempo em viagens de reconhecimento nos mares do Sul; mas reanimara a coragem da pequena equipa portuguesa de Cochim e conseguiu estabelecer uma outra em Cananor. A ilusão de uma Índia cristã dissipou-se a partir do regresso de Cabral que tinha convidado, um padre malabar para Lisboa, o padre José de Cranganor, o qual reconduziu a importância da sua comunidade a proporções mais justas. Os Albuqerques tinham embarcado antes de Vasco da Gama regressar. Este partira de novo para a Índia, na Primavera de 1502, com a missão de fixar os preços das especiarias e negociar o estatuto dos residentes portugueses. Era costume largar de Lisboa em Março com as informações dos navegadores que tinham regressado durante o verão anterior. Datavam de seis meses e mais as ditas informações. Por vezes as armadas cruzavam-se ao largo de África ou deixavam mensagens nos pontos de aguada, dentro de uma panela ou de um sapato, Em 12 de Julho, três navios de Vasco da Gama tinham passado à vista da frota de Albuquerque, mas a repentina violência do mar não lhes permitiu comunicarem, deixando o capitão-mor mergulhar no desconhecido. Salvas de artilharia e fogueiras não puderam evitar que os navios se separassem na tempestade. Giovanni de Empoli anotou que o ‘Santo Espirito’, depois de ter conseguido fazer escala em Sofala e Melinde, se aventurou até Pate, à procura do ‘Santiago’. Mas nada se sabe da rota de Albuquerque. Terá recorrido, como habitual, aos serviços de um piloto de Melinde para atravessar o mar de Omã? Quando a frota se juntou outra vez nas águas da Índia, o pequeno navio de Catarina Dias faltava à chamada. As orações cantadas por intenção de todos aqueles que se haviam perdido não cobriam a alegria do reencontro. A partir de então, as três naus prosseguiram sempre de conserva, com medo de se perderem nos atóis das Maldivas, onde as correntes eram bem de temer. Enfim, o mar limpou, serpentes marinhas e caranguejos vermelhos anunciavam terra próxima. O monte Eli surgia ao longe, dominando as colinas de tom violeta e a margem eriçada de coqueiros. A 11 de Setembro, Afonso de Albuquerque entrou na enseada de Cananor. As notícias que o esperavam não eram de molde a poder entregar-se ao repouso, mas a fazer-se à vela, de imediato, para o porto de Cochim.


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