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sexta-feira, abril 26, 2013

Batalhas e Combates-1801 II

Atlântico Sul
(19 de Maio de 1801)



A Corveta "Andorinha", de 24 peças de artilharia e com 166 homens de guarnição, deve ter largado do Tejo para o Brasil por meados de Abril de 1801, sob o comando do Capitão de Fragata Ignacio da Costa Quintella. À chegada à Baía foi mandada seguir para o Rio de Janeiro. A 19 de Maio, ao romper do dia, achava-se a navegar, fora da vista da costa, na latitude de 16º 10' S e na longitude de 341º 10' a leste do meridiano de Lisboa, o que corresponde a 27º 55' W relativamente ao merediano de Greenwich. Pouco depois do nascer do sol os gajeiros anunciaram que se avistava um navio pela alheta. Conforme se veio a saber posteriormente, tratava-se da Fragata francesa "La Chiffonne" de 44 peças de artilharia e com 360 homens a bordo, dos quais 150 eram granadeiros, que largara de Nantes, sob o comando do Capitão Guyessé, a 12 de Abril, e se dirigia para a ilha Bourbon. Apesar de a "Andorinha" ir com todo o pano em cima cedo se tornou patente que o navio avistado lhe estava a ganhar terreno, dando mesmo a impressão de que a estava a perseguir. Pouco depois do meio-dia, desconfiando de que se tratasse de um inimigo e querendo tirar o caso a limpo, Costa Quintella virou por d'avante e meteu à orça a fim de identificar o seu seguidor e, ao mesmo tempo, tentar passar para barlavento dele. Cerca de meia hora decorrida os dois navios cruzaram-se, embora a uma distância ainda relativamente grande um do outro, passando a Corveta por sotavento da Fragata. Nesse instante Quintella mandou içar e firmar com um tiro de peça a bandeira portuguesa. Respondeu aquela içando a bandeira inglesa, igualmente firmada com um tiro. Mas, logo a seguir, arriou-a e em seu lugar içou a bandeira francesa acompanhada pelo disparo de uma bordada completa! Um simples gesto de intimidação, já que a distância era demasiadamente grande para que os seus tiros pudessem alcançar a "Andorinha". De qualquer forma as cartas estavam postas sobre a mesa. Uma vez que o navio francês era de força muito superior ao seu, a única coisa que Costa Quintella tinha a fazer era tentar escapar-lhe. Para isso continuou ainda durante algum tempo a bolinar o mais possivel para tentar ganhar barlavento ao seu adversário. Porém este, após ter-se cruzado com a nossa Corveta, metera também à bolina cerrada, embora com amuras opostas, e Quintella cedo compreendeu que não tinha a minima hipótese de passar para berlavento dele. Resolveu então arribar até ficar com o vento um pouco para ré do través, que era a mareação em que a Corveta andava mais. Respondeu o francês virando de imediato por d'avante e dando inicio a uma longa perseguição à "Andorinha" que se haveria de prolongar por perto de seis horas. Já ao fim da tarde, quando chegou ao alcance de tiro, a "Chiffonne" começou a disparar os seus canhões de caça sobre a Corveta, por vezes dava uma guinada para sotavento e disparava uma bombarda completa. Mas estes tiros, disparados a grande distância pouco ou nenhum efeito produziram. Quintella mandara levar os dois canhões de caça da proa para a popa e com eles ia respondendo ao fogo dos franceses. Mas de hora a hora a situação ia-se tornando mais crítica à medida que a "Chiffonne" se aproximava. Pelas seis e meia da tarde já se encontrava muito perto, pela alheta de sotavento da "Andorinha", começando a reduzir o pano na intenção evidente de se conservar nessa posição, fora do seu campo de tiro, e começar a descarregar sobre ela as suas baterias para o que lhe bastaria arribar um pouco no momento de fazer fogo. Sentindo-se num beco sem saida, Costa Quintella resolveu jogar tudo por tudo e ordenou uma redução drástica de pano, o que levou a Corveta a prolongar-se rapidamente com a Fragata, a curtissima distância dela. Principiou então um terrivel duelo de artilharia e mosquetaria, talvez a menos de cinquenta metros, já que Quintella diz no seu relatório que os tacos (buchas) de carregamento, após o disparo das peças, iam cair dentro do navio inimigo! Por duas vezes gritaram da "Chiffonne" para a "Andorinha", em espanhol que se rendesse, de ambas foi-lhe respondido pela boca dos canhões. Tentou então Guyessé, por duas vezes, aferrar a Corveta portuguesa, mas sem sucesso. Orçando sempre que o adversário começava a orçar e continuando a descarregar sobre ele os seus canhões carregados com carga dupla de metralha, Costa Quintella fez gorar ambas as tentativas. Por esta altura já os estragos sofridos pelos dois navios na mastreação e no aparelho eram cosideráveis.



Temendo o tiro certeiro dos nossos artilheiros e fuzileiros os tripulantes da "Chiffonne" abandonaram por duas vezes os seus postos de combate refugiando-se no interior. Felizmente para a "Andorinha" a curtissima distância a que estava travando o combate não permitia aos franceses darem a depressão necessária aos seus canhões para a afundarem, fazendo fogo para a zona do casco junto à linha de água. Não obstante, a diferença de forças era demasiado grande para que a luta pudesse durar muito mais tempo. E pelas oito, sendo já escuro, aconteceu o inevitável. Uma bordada da "Chiffonne" disparada contra a mastreação fez cair os mastaréus da gávea, velacho e joanetes, arrastando consigo as respectivas vergas e velas sobre o convés tornando impossivel a manobra do navio. Vendo-se à mercê do inimigo, Costa Quintella, depois de ter resistido durante uma hora e um quarto, entendeu que nada mais podia fazer e rendeu-se. Da nossa parte apesar da dureza do combate, registaram-se somente um morto e dois feridos, da parte dos fraceses constou que teria havido doze mortos e quarenta feridos, mas eles só confessaram três morto e onze feridos. No que toca a estragos materiais, ambos os navios sofreram avarias graves, sobretudo no aparelho e na mastreação. A "Chiffonne" ficou com quatro rombos no casco e um escaler feito em pedaços, perdeu um ferro e teve dois canhões desmontados. Consumada a rendição, os franceses entraram na "Andorinha" deitaram ao mar toda a sua artilharia e apoderaram-se do armamento portátil, das munições, dos instrumentos náuticos e de tudo o mais que pudesse ter algum valor, Guyessé felecitou Quintella pela forma como se tinha batido e afirmou-lhe que tanto ele como os seus homens tinham aprendido a respeitar a nação portuguesa. Depois propôs-lhe deixá-lo seguir livremente com a Corveta se comprometesse, bem como todos os seus oficiais, soldados e marinheiros, a não pegarem em armas contra a França até ao fim da guerra. Não tendo por onde escolher Costa Quintella aceitou o partido. Remediadas as suas avarias a "Chiffonne" seguiu viagem. Trataram os portugueses de pôr o seu navio em estado de navegar tapando os rombos do casco, armando guindolas, substituindo os cabos fixos e de laborar e envergando novas velas. Após quarenta e quatro horas de trabalho intenso a "Andorinha" tomou o rumo da Baía, onde chegou duas semanas depois, depenada e com as asas partidas, mas orgulhosa pela forma como se defendera do gavião que a atacara. Foi este outro dos combates mais gloriosos do periodo que estamos tratando, muito semelhante ao travado pelo Bergantim "Minerva" na costa do Ceará, no ano anterior. Qualquer deles atesta a elevada combatividade e competência dos comandantes e das guarnições dos navios de guerra portugueses da época. 

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