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quinta-feira, abril 25, 2013

Batalhas e Combates-1801 III

Estreito de Gibraltar
(6 a 13 de Julho de 1801)


O exército espanhol que invadiu Portugal a 20 de Maio de 1801 pela fronteira do Alentejo orçava pelos quarenta mil homens, o exército português que se lhe opunha rondaria os trinta mil homens de primeira linha. Refira-se que por esta altura já os Ingleses tinham retirado a maior parte das tropas que haviam enviado para o nosso país em 1797, recusando-se a fornecer-nos novo auxilio. Felizmente para nós não havia da parte dos generais espanhóis grande entusiasmo de tão vil traição contra os seus antigos camaradas de armas na guerra do Russilhão ou porque já se tivessem apercebido de que em todo aquele negócio a Espanha estava sendo um mero joguete nas mãos dos franceses. Curiosamente também os generais portugueses não tomavam muito a peito a guerra por pensarem que ela só estava sendo feita para defender os intereses dos Ingleses. Este estado de espirito è bem ilustrado pelo seguinte trecho de uma carta escrita pelo Duque de Lafões comandante do exército português do Alentejo a Don Francisco Solano general do exército espanhol que se lhe opunha «Excelência (...) somos duas bestas que os outros picam, agitemos as campainhas, mas não nos façamos mal, que seria ridiculo!» Ao que parece Don Francisco Solano terá concordado com esta apreciação da situação, o que vem demonstrar , mais uma vez, que regra geral, os generais são muito menos belicistas que os politicos. O certo é que após a conquista de algumas vilas alentejanas entre as quais Olivença, o exército espanhol suspendeu o seu avanço.



Entretanto os ministros portugueses sentindo-se abandonados pela Inglaterra e aterrados pela perspectiva de um exército francês poder vir juntar-se ao espanhol aconselharam o Príncipe Regente a fazer a paz com a Espanha por qualquer preço. Por seu lado Manuel Godoy sentia à sua volta o ambiente hostil da maior parte da Nobreza espanhola, que não lhe perdoava ter levado o Rei a fazer guerra ao seu próprio genro e à sua própria filha sem qualquer razão para isso. E também ele receava a entrada em território espanhol de um exército francês destinado a colaborar na conquista de Portugal. Deste conjunto de circunstâncias resultou a abertura de negociações que conduziram à assinatura, em 6 de Junho de 1801, do célebre Tratado de Badajoz, mediante o qual Portugal se comprometeu a fechar os seus portos aos navios ingleses e a abri-los aos franceses, a pagar à França uma enorme indemnização, a recuar a fronteira do Brasil com a Guiana Francesa e a ceder à Espanha a titulo definitivo, a vila de Olivença e o seu termo. Em contrapartida, a Espanha acedeu a retirar as suas tropas do nosso território, a reconhecer a soberania portuguesa sobre o território das «Sete Missões» e a empenhar os seus bons oficios no sentido de convencer a França a ratificar o tratado. E assim terminou, dezasseis dias depois de ter começado a «Guerra das Laranjas» assim chamada pelo facto de nos primeiros dias da campanha Manuel Godoy ter enviado à Rainha dois ramos de laranjeira cortados em território português como prova de que a invasão estava correndo sobre rodas.



A 22 de Junho de 1801, portanto já depois de ter sido assinado o Tratado de Badajoz, largaram do Tejo com destino ao estreito de Gibraltar as Fragatas "Princesa Carlota", de 46 peças de artilharia, sob o comando do Capitão-de-mar-e-guerra Crawford Duncan e a Fragata "São João", de 40 peças sob o comando do Capitão de Fragata Manuel do Canto e Castro e Mascarenhas. De acordo com as ordens recebidas, uma vez chegado à costa do Algarve, deveria Duncan incorporar na sua força o Bergantim "Lebre", ali em serviço, e assegurar a protecção da nossa navegação na zona, escoltando-a até aos seus portos de destino e dando caça aos corsários barbarescos e mouriscos. Quando lhe parecesse oportuno deveria ainda ir com a "Carlota" a Gibraltar a fim de entregar as malas do correio que levava com destino àquela praça. Em principios de Julho dispôs-se Crawford Duncan a executar esta última tarefa e dirigiu-se para Gibraltar, deixando a "São João" e o "Lebre" na costa algarvia. Pela mesma altura encontravam-se também a caminho do estreito três Naus de guerra e uma Fragata francesas que tinham saido de Toulon, sob o comando do Almirante Linois, com destino a Cádis. À passagem por Algeciras foi este informado de que uma esquadra inglesa de sete Naus de guerra e uma Fragata que estava a bloquear Cádiz, sob o comando de Saumarez, vinha ao seu encontro. Não estando dispostos a bater-se com os ingleses numa situação de tão clara inferioridade, Linois resolveu arribar a Algeciras onde fundeou os seus navios debaixo dos canhões dos fortes espanhóis. No porto encontravam-se ainda sete Lanchas-canhoneiras espanholas que tomaram as disposisões necessárias para ajudarem a defender os navios franceses. A 6 de Julho, ao amanhecer, surgiu diante de Algeciras a esquadra de Saumarez, constituida apenas por seis Naus de guerra, já que a Nau de guerra "Superb" e a Fragata "Thames" haviam sido deixadas a vigiar Cádis. Sem hesitar, o Almirante inglês lançou-se de imediato ao ataque dos navios franceses, disposto a repetir a proeza de Nelson em Abukir. Mas as coisas não lhe correram de feição. Por um lado o vento era fraco, o que atrasou e dificultou a manobra dos navios ingleses, por outro lado, os franceses, logo que se aperceberam de que os ingleses os queriam atacar simultaneamente por ambos os bordos, picaram as amarras e deixaram-se descair para cima de terra inviabilizando aquela manobra. Em resultado do intenso canhoneio que se seguiu todos os navios intervenientes na luta sofreram grossas avarias. Cinco das sete lanchas-canhoneiras espanholas foram afundadas, duas Naus de guerra inglesas, a "Hannibal" e a Nau "Pompée", encalharam.



A Fragata portuguesa "Princesa Carlota" que ia, como se disse a caminho de Gibraltar, juntara-se á esquadra de Saumarez quando esta se dirigia para Algeciras. Como seria de esperar, não tomou parte no ataque aos navios franceses que se haviam refugiado naquele porto, o que seria inadmissivel depois de Portugal ter assinado um tratado de paz com a Espanha e estar à espera que o mesmo fosse ratificado pela França. Não obstante, quando lhe foi solicitado por Saumarez e pelo governador de Gibraltar que ajudasse a socorrer os navios ingleses encalhados, Duncan não se conteve e cedendo à força dos laços de sangue, deu ordem aos seus escaleres para que fossem juntar-se aos dos ingleses que estavam tentando puxar as duas Naus encalhadas para fora. Durante esta fase da batalha a "Carlota" foi repetidamente atingida pelos tiros dos fortes espanhóis e dos navios franceses, tendo sofrido avarias de certa importância na mastreação e no aparelho. Depois de muito trabalho os escaleres ingleses e portugueses conseguiram desencalhar a "Pompée" e levala a reboque para Gibraltar. A "Hannibal", que estava metida mais para dentro da baía, não teve a mesma sorte acabando por ter de se render. Com três dos quatro navios que lhe restavam também muito maltratados, Saumarez viu-se forçado a bater em retirada para Gibraltar a fim de os poder reparar. A 9 de Julho chegaram a Algeciras, idas de Cádis, cinco Naus de guerra e uma Fragata espanholas sob o comando do Almirante Moreno, e uma Nau de guerra, uma Fragata e um Bergantim franceses, sob o comando do Contra-almirante Dumannoir. A "Superb" e a "Thames", que estavam vigiando Cádis, vieram à sua frente e juntaram-se aos navios ingleses que estavam em Gibraltar a efectuar reparações de emergência. Em resultado destes movimentos ficaram os fronco-espanhóis dispondo em Algeciras de nove Naus de guerra, três Fragatas e um Bergantim, além de duas Lanchas-canhoneiras, contra as seis Naus de guerra e a Fragata que os ingleses tinham em Gibraltar. Quanto a Crawford Duncan, aquilo que lhe competia fazer era simplesmente entregar as malas do correio e regressar ao Algarve. Mas é evidente que lhe repugnava abandonar os seus compatriotas nas vésperas de uma batalha. É também natural que os oficiais e os marinheiros e soldados portugueses partilhassem de sentimentos semelhantes, pesando-lhes abandonar os seus antigos aliados em momento tão critico. Desse estado de espirito resultou ter-se Duncan oferecido para acompanhar a esquadra inglesa, embora prevenindo Saumarez de que não poderia tomar parte activa no combate uma vez que Portugal estava em paz com a Espanha e com a França. A 12 de Julho, quando a esquadra franco-espanhola deixou Algeciras com destino a Cádis e a inglesa de Saumarez se lançou em sua perseguição, lá ia a "Carlota" praticamente integrada nesta última! Sem dúvida uma leviandade por parte de Crawford Duncan, que antepôs o seu brio profissional e o apelo da sua própria nacionalidade às obrigações que tinha perante os interesses do país que lhe havia confiado o navio que comandava. Apesar da esmagadora superioridade numérica de que dispunha o Almirante Moreno não pensou em dar combate aos ingleses cuja melhor qualidade receava preocupando-se somente com levar todos os seus navios a salvamento até Cádis. Nesse dia o vento estava a soprar fresco de leste. Tendo a maior parte dos seus navios com o aparelho em nau estado em resultado do combate de Algeciras, Saumarez não conseguia ganhar terreno aos franco-espanhóis. Cerca das onze e meia da noite temendo que aqueles acabassem por se lhe escapar, ordenou à "Superb" e à "Thames" que a coberto da escuridão, fossem atacar os navios da retaguarda da esquadra inimiga a fim de retardar a marcha desta. Sem hesitar, Duncan foi com elas! Cerca das duas da madrugada, do dia 13 a "Superb" e a "Thames" começaram a distinguir vultos à sua frente, pelo meio dos quais se meteram fazendo fogo por ambos os bordos. Ao começarem a ser alvejados os navios espanhóis da cauda da formatura ripostaram imediatamente. Mas como não lhes era fácil, no escuro, distinguir os amigos dos inimigos dois deles envolveram-se num medonho duelo de artilharia entre si que culminou com o lançamento de grande quantidade de granadas incendiárias. Só quando o clarão dos incêndios iluminou a cena é que deram pelo terrivel engano em que tinham estado a laborar e cessaram fogo. Mas já era demasiado tarde! Continuando a arder furiosamente, as duas Naus espanholas uma após outra, acabaram por explodir e afundar-se. Neste meio tempo a "Superb" e a "Thames" estavam travando um combate encarniçado com a "Santo António", uma Nau de guerra espanhola que havia sido cedida aos franceses e que embora arvorando bandeira francesa, tinha uma guarnição mista de franceses e espanhóis. Pela sua parte a "Carlota" estaria combatendo com a Fragata francesa "Indienne". Possivelmente, tendo sido alvejada por esta ... respondera! O que se passou a seguir não é bem claro. Segundo os historiadores portugueses, vendo Crawford Duncan que a "Superb" se encontrava em dificuldades para dominar o seu adversário, ter-se-ia deixado descair para perto da "Santo António", começando a batê-la por uma alheta. Isso teria contribuído decisivamente para que um quarto de hora depois a Nau francesa se rendesse. Se na realidade assim foi, o procedimento de Duncan é imperdoável. Segundo os historiadores ingleses, terão sido a "Superb" e a "Thames" quem obrigaram a "Santo António" a render-se. Seguidamente a "Superb" teria ido em busca de novos alvos, deixando aquela à guarda da "Thames" e da "Carlota".



Segundo esta versão, a nossa Fragata não teria chegado a abrir fogo, embora, obviamente, tivesse interferido na contenda a favor dos Ingleses. Acerca deste ponto parece não poder existir qualquer dúvida. Um pouco depois das cinco o grosso da esquadra inglesa chegou ao contacto balístico com os navios mais atrasados da esquadra franco-espanhola, envolvendo-se com eles num combate confuso e sem consequências de maior. O vento caíra e os navios ingleses tinham dificuldade em manobrar. Um deles acabou mesmo por encalhar, sendo necessário enviar em seu auxilio os escaleres dos outros, que o ajudaram a pôr a nado. Ao romper do dia Moreno constatou com desgosto que tinha três Naus a menos, o que reforçou a sua intenção de evitar o combate e seguir o mais depressa possivel para Cádis. Não tendo possibilidade de o alcançar antes de atingir aquele porto, Saumarez regressou a Gibraltar, levando consigo a "Santo António". Crawford Duncan mais uma vez demonstrou falta de senso. Em vez de continuar viagem para o Algarve, voltou também para Gibraltar na companhia da esquadra inglesa a fim de reclamar a sua parte no prémio em dinheiro pela captura da "Santo António". de notar que esta sua atitude parece indicar que na realidade terá tomado parte activa no combate que conduziu à sua rendição. De qualquer forma, Saumarez não atendeu o seu pedido, a pretexto de que antes da batalha o havia informado de que não poderia tomar parte nela. Talvez porque tivesse avarias importantes que precisava de reparar Duncan conservou-se em Gibraltar até 14 de  Agosto, data em que recebeu ordem para regressar imediatamente a Lisboa. Assim fez, dando entrada no Tejo a 28 do mesmo mês, acompanhando oito navios mercantes carregados com trigo e que vinham de Marrocos. Pouco dias depois foi exonerado do comando da "Princesa Carlota", sendo de presumir que tenha sido mandado regressar a Inglaterra.



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