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terça-feira, junho 23, 2015

Batalhas e Combates-1503 I

Cochim
(Outono-Inverno de 1503)



O sucesso, sob o ponto de vista náutico, da pequena armada de 1501 de João da Nova, em comperação com o descalabro da grande armada de 1500 de Pedro Álvares Cabral, deve ter levado a corte de Lisboa, antes do regresso da armada de 1502 de Vasco da Gama, a pensar que seria preferível utilizar na viagem para a Índia pequenas armadas constituídas apenas por três ou quatro navios homogéneos, a fim de evitar que os mais rápidos se atrasassem desnecessariamente por terem de regular a marcha pelos mais lentos. Possivelmente por esta razão, no ano de 1503, ao contrário do que acontecera nos anos anteriores, partiram para a Índia, em vez de uma, três armadas independentes umas das outras, qualquer delas constituída por três Naus. Duas dessas armadas, capitaneadas, respectivamente, por Francisco de Albuquerque e Afonso de Albuquerque destinavam-se a voltar com especiarias, a terceira, comandada por António de Saldanha, destinava-se a ficar cruzando nas proximidades do cabo Guardafui, a fim de interceptar as chamadas «Naus de Meca» que asseguravam o comércio marítimo entre o mar Vermelho e os portos da costa indiana. Entretanto na Índia a situação agravara-se perigosamente. Depois da partida de Vasco da Gama para Portugal, o Samorim de Calicut tinha concentrado em Panane um exército de cinquenta mil homens para castigar o Rei de Cochim, que era seu vassalo, pelo bom acolhimento que estava dando aos Portugueses. 



Sabedor disso, o feitor daquela cidade instou com Vicente Sodré, que ficara na Índia com uma armada de cinco Naus de guerra e uma Caravela armada com artilharia, para que não se afastasse de Cochim. Mas ele não lhe deu ouvidos e com a desculpa de que durante a «monção» o Samorim não se atreveria a fazer guerra, foi para a entrada do mar Vermelho à caça das «Naus de Meca». Em Julho, estando fundeado numa pequena ilha perto da costa da Arábia, foi a sua armada assaltada por um temporal tão violento que deram à costa e se perderam duas Naus, com morte de muita gente entre a qual o próprio Vicente Sodré. Os Capitães das restantes três Naus e da Caravela, pensando que a morte do seu Capitão-Mor fora castigo de Deus por ter abandonado Cochim, resolveram regressar a esta cidade. Mas, como nessa altura a «monção» estava na sua máxima força, viram-se forçados a invernar na ilha de Angediva, onde, pouco depois, se lhes juntou a Nau de António do Campo que se desgarrara da armada do ano anterior e que só então conseguira chegar à Índia. Prestes a terminar a «monção» chegou também a Angediva a armada de Francisco de Albuquerque, reduzida a duas Naus, já que a terceira se tinha perdido na viagem. Deste modo, encontravam-se concentradas naquela ilha seis Naus e uma Caravela com que Francisco de Albuquerque se apressou a ir em socorro de Cochim. Não era sem tempo!



Após a partida da armada de Vicente Sodré, o Samorim tinha invadido o reino de Cochim, onde a maioria dos nobres e do povo insistia com o Rei para que entregasse os portugueses da feitoria a fim de evitar a guerra. Aquele porém, numa rara manifestação de rectidão moral, recusara-se terminantemente a facê-lo, dizendo ser preferível perder o reino do que faltar ao cumprimento da palavra dada. Daí resultou que muita gente sua se passou para o invasor, ficando o exército do Rei tão enfraquecido que apesar de se ter batido valentemente, não pôde evitar que as tropas do Samorim ocupassem a cidade de Cochim. Fugiu o Rei para uma ilha próxima, levando consigo os portugueses da feitoria, enquanto o exército de Calicut, depois de ter deixado uma guarnição em Cochim, recolhia a Cranganor. Nesta altura chegou a armada de Francisco de Albuquerque que foi recebida com delirantes manifestações de júbilo, tanto pelos portugueses da feitoria como pelas gentes de Cochim que haviam permanecido fiéis ao seu Rei. As tropas de Calicut que estavam em Cochim, debandaram imediatamente e o Rei foi reinstalado com toda a solenidade na sua capital. Nessa mesma noite, Francisco de Albuquerque, que dispunha de cerca de seiscentos portugueses, auxiliados pelo que restava do exército do Rei de Cochim, deu início às represálias contra os vassalos daquele Rei que haviam auxiliado o Samorim, assaltando-lhe de supresa as suas aldeias e matando-lhes muitos soldados. 



Dada a natureza da região, toda ela cortada por numerosos esteiros e rios, os portugueses utilizavam em larga escala os seus batéis, artilhados e empavesados, o que lhes conferia grande mobilidade e superioridade táctica sobre o inimigo. Convirá esclarecer que «paveses» eram quaisquer protecções com que se alteava a borda de um navio ou de uma embarcação (geralmente escudos ou pranchas de madeira) com o fim de proteger a sua guarnição contra as flechas e as pedras lançadas pelo adversário. Nas Naus, utilizavam-se também redes estendidas por cima do convés, para o mesmo fim. No caso dos batéis utilizados em Cochim, dadas as suas pequenas dimensões, admitimos que também pudessem estar cobertos com pranchas de madeira. Reduzidas de novo as terras próximas de Cochim à obediência ao seu Rei, Francico de Albuquerque obteve autorização deste para iniciar a construção de uma fortaleza, a primeira que os Portugueses tiveram na Índia destinada a defender a cidade e a feitoria contra futuras arremetidas do Samorim. Em fins de Setembro chegou a Cochim a armada de Afonso de Albuquerque, o qual por trazer a gente mais folgada, tomou a seu cargo a obra da fortaleza. Na mesma altura, deverá ter sido montada uma segunda Caravela. Para artilhar e guarnecer a fortaleza, esta caravela e os batéis é provável que tenham sido desarmadas duas, das três Naus que restavam da antiga armada de Vicente Sodré, uma vez que deixam de aparecer referências a seu respeito.



Concluída a construção da fortaleza, Francisco de Albuquerque e Afonso de Albuquerque recomeçaram os assaltos às terras de Cochim que ainda não se tinham submetido, tendo lugar violentos combates, tanto em terra como nos rios, de que sempre os portugueses saíram vencedores. Mas se as coisas estavam decorrendo à sua feição no campo militar, o mesmo não acontecia no campo comercial. Os Paraus de Calicut infestavam todos aqueles rios e esteiros e não deixavam chegar a Cochim a pimenta necessária para carregar as Naus. Certo dia, Francisco e Afonso de Albuquerque foram informados de que numa localidade, situada aproximadamente a nove léguas de Cochim havia grande quantidade de pimenta. Resolveram logo ir buscá-la, levando quatro batéis e uns tantos paraus de Cochim. Atacados frequentemente durante o percurso por frecheiros escondidos nas margens e por paraus, os Portugueses foram levando tudo de vencida, conseguindo chegar ao fim da tarde ao local onde estava a pimenta. Carregaram-na num tone (espécie de embarcação indiana) e, nessa mesma noite, regressaram a Cochim sem ser incomodados. Tratava-se agora de voltar com o tone ao lugar donde viera levando as mercadorias destinadas a pagar a pimenta. Foi encarregado dessa tarefa Duarte Pacheco Pereira, que partiu de madrugada com os mesmos quatro batéis e os paraus de Cochim em que iam embarcados cerca de cento e cinquenta portugueses e quinhentos malabares. De novo teve que travar diversos combates antes de conseguir chegar ao seu destino, onde entregou o tone e as mercadorias que ele levava sem mais novidades. Mas uma surpresa desagradável esperava os Portugueses na viagem de regresso! Quando chegaram a uma passagem apertada, acharam-na obstruída por trinta e quatro Paraus de Calicut amarrados uns aos outros, armados cada um deles com um canhão à proa e guarnecidos com muitos frecheiros. Animou Duarte Pacheco os seus homens dizendo-lhes que não tivessem receio porque, sendo os Paraus inimigos mais alterosos que os batéis os seus tiros haviam de passar por cima destes sem lhes fazer dano. Postos em linha, com as proas voltadas para o inimigo, os quatro batéis portugueses investiram resolutamente contra os Paraus de Cochim, sem se preocuparem com a chuva de flechas que caía sobre eles. E quando chegou o momento de entrarem em acção os canhões, aconteceu exactamente aquilo que Duarte Pacheco previra, os pelouros dos malabares passaram por cima dos nossos batéis ao passo que os destes acertaram em cheio nos Paraus de Calicut, arrombando alguns e desorganizando o seu dispositivo de combate. Aproveitando a confusão, os nossos navios meteram-se por uma brecha que se formara na linha inimiga e prosseguiram no seu caminho, deixando para trás os Paraus de Calicut embaraçados uns nos outros! Mas o problema estava longe de se poder considerar resolvido. Logo que se recompuseram, os Paraus foram em seguimento dos batéis, disperando continuamente a sua artilharia. Era uma situação melindrosa já que os portugueses não tinham possibilidade de responder, uma vez que cada batel dispunha de um único canhão, montado à proa, que só podia fazer fogo para vante. Mandado seguir adiante os Paraus de Cochim que iam em sua companhia, Duarte Pacheco cobria a retirado com os batéis portugueses que de quando em quando, invertiam o rumo para disparar sobre os seus perseguidores. Esta manobra tinha, no entanto, o inconveniente de permitir que os Paraus de Calicut se fossem aproximando cada vez mais. Em consequência disso, os batéis acabaram por se ver envolvidos por eles. Entretanto, os Paraus de Cochim chegavam a esta cidade e davam conta aos Capitães-Mor da situação aflitiva em que haviam deixado Duarte Pacheco. Meteram-se aqueles imediatamente nos Paraus de Cochim com todos os portugueses que puderam arrebanhar e foram em seu socorro. Felizmente a sua ajuda não foi necessária. Quando chegaram junto dos nossos batéis já estes tinham conseguido pôr o inimigo em fuga, depois de lhe terem matado e ferido muita gente e de lhe terem afundado dois Paraus. Em consequência deste combate, o Samorim mandou reforçar os Paraus que bloqueavam a passagem da pimenta para Cochim, o que levou Afonso de Albuquerque a dirigir-se a Coulão, onde obteve autorização para deixar uma feitoria e onde conseguiu carregar as suas Naus. Esta manobra foi decisiva, pois que o Samorim, vendo por um lado que os Portugueses, graças à mobilidade que lhes conferiam as suas armadas, acabavam sempre por conseguir obter as especiarias que desejavam e que por outro lado, não conseguia escoar devido à guerra, a pimenta que tinha nos seus portos, resolveu propor negociações de paz a Francisco de Albuquerque.



Feita esta, pôde ir uma Nau portuguesa carregar a Cranganor. Tudo parecia resolvido, quando o feitor de Cochim, estupidamente, mandou tomar à força um tone de Calicut carregado de pimenta, em cuja captura foram mortos alguns malabares. tanto bastou para que o Samorim interrompesse o fornecimento de pimenta e recomeçasse a guerra contra os Portugueses e contra Cochim. Procurando desesperadamente obter a pimenta que faltava para completar o carregamento das suas Naus, Francisco de Albuquerque mandou recado aos comerciantes do interior para que a fossem levar a certo local, afastado de Cochim, onde enviou uma Caravela e um batel para a recolher. Porém quando estes se dirigiam para o referido local, foram atacados por quarenta Paraus de Calicut que estavam emboscados à sua espera. Travou-se então um furioso combate, em que apesar da superioridade da artilharia da Caravela, os portugueses estiveram em risco de ser derrotados. É de crer que entretanto, o vento tivesse caído e que por isso só o batel tenha podido regressar a Cochim para pedir socorro. Mais uma vez, teve Francisco de Albuquerque de embarcar à pressa nos batéis e Paraus que estavam mais à mão, com a gente que pôde arranjar, para ir em socorro da caravela. Encontrou-a rodeada de Paraus com os quais lutava corajosamente tendo já destroçado alguns deles. À vista da flotilha de Francisco de Albuquerque os Paraus de Calicut puseram-se em fuga. Em resultado deste combate ficou a Caravela tão arrombada qur teve de ser posta em seco para ser reparada! Sendo tempo de começar a pensar no regresso a Portugal Francisco de Albuquerque deixou em Cochim Duarte Pacheco Perira com uma Nau duas Caravelas e dois batéis armados, guarnecidos por cento e quinze homens, além dos quarenta que ficaram na fortaleza, e dirigiu-se para Cananor. A Nau de António do Campo a primeira que completara a carga já ia a caminho de Lisboa. As três naus de Afonso de Albuquerque que também se encontravam carregadas deixaram a Índia pouco depois. Porém só duas chegaram a Portugal, dado que uma se perdeu na barra de Quíloa. Por fim a 31 de Janeiro de 1504, foi a vez de partir Francisco de Albuquerque na companhia de Nicolau Coelho (que comandara a "Bérrio" na primeira viagem de Vasco da Gama). E nada mais se soube a seu respeito. Desapareceram ambos na viagem sem deixar o mais pequeno rasto. Pesquisas feitas posteriormente na costa de África e na ilha de São Lourenço (Madagáscar) para os encontrar não deram qualquer resultado. Tiveram a sina dos muitos navios e marinheiros que o Mar, por vezes, engole e sepulta nas suas profundezas sem que ninguém saiba onde, nem quando nem como isso aconteceu.



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