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quarta-feira, julho 02, 2014

Batalhas e Combates-1799 II

Tripoli
(11 de Maio de 1799)
        
A 13 de Junho de 1798 largou de Lagos, sob o Comando do Vice-Almirante Marquês de Nisa, uma esquadra de quatro naus de linha, uma fragata e um bergantim destinada a cooperar com a cooperar com a esquadra inglesa do Mediterrâneo Comandada pelo Vice-Almirante H. Nelson.


    

Conforme já tivemos ocasião de dizer, por esta época os nossos navios de guerra eram de excelente qualidade, em resultado da acção esclarecida de ministros da Marinha de Portugal de alto gabarito, do facto de muito, deles serem comandados por oficiais ingleses e, sobretudo, de andarem muito tempo no mar, a única escola onde é possível fazer bons marinheiros. Entretanto, a 1 de Agosto de 1798, o Vice-Almirante H. Nelson destruía na baía de Abukir, quinze milhas a nordeste de Alexandria, a esquadra francesa do Mediterrâneo, deixando Napoleão Bonaparte isolado com o seu exército no Egipto. A esquadra portuguesa não tomou parte na batalha porque só chegou a Alexandria a 27 de Agosto. Sendo-lhe comunicado pelo comandante da divisão naval inglesa que ficara a bloquear aquela cidade de que os seus serviços não eram necessários, o Vice-Almirante Marquês de Nisa, nesse mesmo dia, iniciou a viagem de regresso à Sicília a fim de se juntar ao Vice-Almirante H. Nelson. Mas a presença dos nossos navios ao largo de Alexandria não passou despercebida a Napoleão, que estava em Alexandria e que ficou muito indignado com o facto de um pequeno como Portugal se atrever a continuar em guerra com a poderosa França. E numa ordem do dia aos seus soldados, escreveu; «Tempo virá em que a nação portuguesa pagará com lágrimas de sangue o ultraje que está fazendo à Republica Francesa!»


    

Integrada na esquadra do Vice-Almirante H. Nelson, a esquadra do Vice-Almirante Marquês de Nisa, conservou-se no Mediterrâneo até Fevereiro de 1800, tomando parte activa nos bloqueios de Malta e de Toulon e na reconquista de Nápoles. No entanto, apesar da forma meritória como se desempenhou de todas as tarefas de que foi incumbida, o Vice-Almirante H. Nelson, não deu qualquer relevo aos serviços por ela prestados. Segundo Cutileiro; “(…) o almirante inglês teria ciúmes do Vice-Almirante Marquês de Nisa, por ser um fidalgo distinto e um bonito homem que fazia furor entre as damas, principalmente junto de lady Hamilton”! A 3 de Abril encontrando-se a esquadra portuguesa em Palermo foi mandado seguir para Tripoli a nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’ (antiga nau ‘Nossa Senhora dos Prazeres’) de 64 peças de artilharia de que era comandante o Chefe de Divisão Donald Campbell, com uma missão assaz complexa; destruir os navios franceses que eventualmente se encontrassem no porto, da cidade, e levar o Bei de Trípoli, a assinar uma trégua com Portugal, a entregar os franceses que viviam em Trípoli e a substituir o Capitão do porto.


    


A 6 de Maio fundeava a nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’ em frente de Trípoli. Não se encontrando no porto qualquer navio francês, tiveram inicio as negociações com o Bei que acabou por aceder a tudo quanto era pedido. Mas alguns dias depois reconsiderou e recusou-se a entregar os franceses que viviam na cidade. O Chefe de Divisão Donald Campbell apresentou-lhe um ultimatum; se os não entregasse dentro de catorze horas iniciaria o bloqueio do porto! Mas antes de ter expirado sobreveio um temporal que obrigou a nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’ a fazer-se ao largo. Passada a borrasca, a 11 de Maio o Chefe de Divisão Donald Campbell voltou a fundear diante de Trípoli. Entretanto, durante os dias em que a nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’ se conservara afastada, havia dado entrada no porto interior uma polaca de guerra da cidade, de 18 peças de artilharia e com 150 homens de guarnição. Pensando que uma demonstração de força seria útil para obrigar o Bei a ceder, o Chefe de Divisão Donald Campbell decidiu tomá-la. Mas como a polaca se encontrava fundeada num local onde a nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’ devido ao seu calado, não podia chegar, a operação teve que ser levada a cabo por uma força de ataque constituída pela lancha, e pelos três escaleres da nau armados em guerra, sob o comando do imediato, Capitão-de-fragata José Maria de Almeida. Refira-se que para guarnecer aquelas embarcações se ofereceram voluntariamente todos os oficiais, soldados e marinheiros da nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’, sendo necessário a recorrer a sorteio para escolher os que haviam de tomar parte no golpe de mão, o que mostra bem o elevado moral da guarnição. Não nos diz o cronista qual a hora a que a esquadrilha largou a nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’, mas é de supor que fosse ainda de manhã. Será também de presumir que os Tripolitanos, só se tenham apercebido da iminência do ataque quando as nossas embarcações saíram detrás da ponta de terra que encobre o porto interior e se dirigiram à voga arrancada para a polaca. Nessa altura tanto esta como os fortes abriram fogo, possivelmente um tanto à toa por terem sidos apanhados de surpresa. Indiferentes às «gerbes» que se levantavam à sua volta, a lancha, e os escaleres continuaram a avançar velozmente. Vendo a determinação dos portugueses, os tripulantes da polaca cortaram as amarras por forma a permitir que empurrada pela ondulação, encalhasse na praia para onde estava acorrendo muita gente armada. Mas já um dos nossos escaleres, comandado pelo Capitão-tenente Miguel José de Oliveira Pinto, atacava a ela e lhe metia dentro um grupo de soldados que se envolveram em luta com os seus tripulantes. Porém, nesse mesmo instante, a boca do escaler partiu-se, ou foi cortada, e este foi atirado pela ondulação para a praia, onde encalhou, sendo logo atacado pelos numerosos tripolitanos armados que ali se encontravam. Sem se desorientar, o Capitão-de-fragata José Maria de Almeida ordenou a um dos outros escaleres, de que era comandante o Segundo-tenente Alexandre Luís de Sousa Malheiros, que fosse socorrer os soldados que tinham saltado para dentro da polaca, enquanto ele próprio se dirigia com a lancha para mais perto da praia e começava a fazer nutrido fogo sobre os tripolitanos que se amontoavam em redor do escaler do Capitão-tenente Miguel José de Oliveira Pinto.


      

Quanto ao terceiro escaler é de supor que ainda viesse atrasado. Com a chegada do escaler do Segundo-tenente Alexandre Luís de Sousa Malheiros foi possível aos nossos apoderarem-se da polaca, cujos canhões, utilizaram imediatamente par metralhar os inimigos que se encontravam na praia. Graças a isso, pôde a lancha passar um cabo ao escaler do Capitão-tenente Miguel José de Oliveira Pinto e puxá-lo para fora tirando-o da situação da situação crítica em que se encontrava. Entretanto a nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’ viera fundear para mais perto do local do combate, principiando também a bater a praia com a sua artilharia. Tentou então o Capitão-de-fragata José Maria de Almeida rebocar a polaca para fora do porto, mas todas tentativas que fez nesse sentido foram baldadas porque ela acaba por encalhar na praia, ficando bem presa ao fundo. Resolveu então pôr-lhe fogo. Quando viu este bem ateado bateu em retirada para junto da nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’, sempre acossado pelo tiro dos fortes. Neste bem-sucedido golpe de mão, os portugueses tiveram apenas um marinheiro ferido, que posteriormente veio a falecer; os tripolitanos além de ter perdido a polaca, sofreram cerca de vinte cinco mortos e vários feridos. No dia seguinte, 12 de Maio, tentou entrar para o porto interior uma fragata tripolitana acompanhada por um navio sueco que tinha apresado. Deu-lhes caça nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’, capturando-os a ambos. Compreendendo que a continuação do bloqueio seria a ruína da cidade o Bei optou por submeter-se às exigências do Chefe de Divisão Donald Campbell, e a 13 enviou para bordo da nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’ os residentes franceses. A 14 assinou um tratado de tréguas entre Portugal e Trípoli. Tendo completado com pleno êxito a missão de que fora incumbido, o Chefe de Divisão Donald Campbell levantou ferro a 20 de Maio, dirigindo-se para Palermo onde chegou a 31.

    

Será curioso referir que cinco anos mais tarde, a 15 de Fevereiro de 1804, um pequeno navio com setenta e cinco fuzileiros americanos escondidos a bordo, sob o comando de Decatur, entrou no porto interior de Trípoli durante a noite e conseguiu pôr fogo à ‘Philadelphia’, uma nau de guerra americana que ali se encontrava depois de ter sido capturada pelos tripolitanos no ano anterior, na sequência de um encalhe. Apesar dos tiros do forte, Decatur, concluída a sua missão, conseguiu escapar-se praticamente sem perdas. Como se vê foi uma acção muito semelhante à levada a cabo pelas embarcações da nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’, sob o comando  do Capitão-de-fragata José Maria de Almeida, em 11 de Maio de 1799. A diferença entre ambas reside principalmente na forma como foram apreciadas. Para os Americanos a destruição da ‘Philadelphia’ dentro do porto de Trípoli é considerada um dos feitos mais gloriosos da História da sua Marinha e Decatur é considerado um herói nacional. Aliás, o próprio Almirante H. Nelson, referindo-se a esta acção, terá dito que tinha sido «a mais resoluta e a mais audaciosa da sua época!» Para os Portugueses o ataque realizado pelas embarcações da nau de linha ‘Afonso de Albuquerque’ foi apenas uma operação de rotina que não mereceu qualquer destaque. E também não consta que o Vice-Almirante H. Nelson, lhe tenha ligado a mínima importância, apesar de ter sido executado sob as suas ordens! Daqui poderíamos concluir que «dos pequenos não reza a História!».

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