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terça-feira, dezembro 23, 2014

Batalhas Navais-Índico-1505 I

Onor
(18 de Outubro de 1505)



A armada de 1503, no seu regreso, trouxera más notícias; das seis naus que haviam partido de Lisboa, perderam-se quatro, o Samorim de Calicut estava em guerra aberta com Cochim, onde ficara Duarte Pacheco, somente com uma nau e duas caravelas. Vicente Sodré abandonara com a sua esquadra a costa do Malabar, pondo em perigo a sobrevivência das feitorias aí instaladas, essa mesma esquadra acabara por se desintegrar por terem naufragado duas das suas cinco naus e outras duas terem sido desarmadas por falta de gente para as guarnecer. Em consequência de tudo isto, a política de D. Manuel em relação à Índia sofre nova alteração. Em 1500 tinha pensado que bastaria instalar feitorias nas principais cidades da costa indiana e fazer amizade com os reis locais para se apoderar do monopólio do comércio das especiarias. Em 1502, havia chegado à conclusão de que, além das feitorias, era também necessário manter na Índia uma armada permanente para as proteger e dar caça às «naus de Meca». Via agora que isso ainda não era bastante e que era também necessário construir fortalezas em todos os locais onde havia feitorias, não só para maior segurança destas como também para servirem de pontos de apoio para a armada.



Em pouco mais de quatro anos os Portugueses tinham descoberto a fórmula mágica que lhes iria dar durante mais de um século o domínio militar, político e económico do oceano Índico, o trinómio FEITORIA-FORTALEZA-ARMADA. Ao mesmo tempo que delineava a nova politica em relação à Índia chegava D. Manuel à conclusão de que não lhe era possível continuar a dirigir os negócios do Oriente de Lisboa, baseado em informações que recebia com cerca de dois anos de atraso. E tomou a decisão importatíssima de nomear um governador, com o título de vice-rei. para, em seu nome e praticamente com a sua autoridade, gerir "in loco" aqueles negócios. Tal medida, dando ênfase aos princípios da unidade de comando e da descentralização, iria permitir aos Portugueses concentrar os parcos recursos de que dispunham na Índia, na prossecução dos objectivos considerados essenciais, conseguindo resultados espectaculares com meios diminutos.



Para primeiro vice-rei da Índia foi escolhido Dom Francisco de Almeida. que em 1505 partiu de Lisboa com uma armada de 14 naus e 6 caravelas. Do seu regimento fazia parte a construção de fortalezas em Quiloa, Angediva, Cananor, Cochim (para substituir a existente que era de madeira) e Coulão, bem como a organização de duas armadas permanentes. Uma para patrulhar desde o cabo Guardafui até ao golfo de Cambaia, e a outra para patrulhar desde o golfo de Cambaia até ao cabo Comorim (convirá acrescentar que, com D. Francisco de Almeida, partiu ainda Pêro de Anaia com outra armada, constituída por duas naus e quatro caravelas tendo por missão construir uma fortaleza em Sofala). D. Francisco de Almeida, chegado à costa oriental da África, conquistou Quíloa e destruiu Mombaça, para evitar que pudesse fazer concorrência àquela. Seguiu depois para a ilha de Angediva, onde deu início não só à construção de uma fortaleza como também à construção de duas galés e um bergantim para os quais levava a madeira já aparelhada. Encontrando-se entretido com estes trabalhos, foi D. Francisco de Almeida procurado por um embaixador do rei de Onor, cidade situada um pouco a sul de Angediva, com propostas de amizade. Celebrou-se o acordo e foram trocados os habituais cumprimentos e presentes. Mas, alguns dias depois, as pazes quebraram-se por o rei de Onor se ter apoderado de uns cavalos que os portugueses tinham capturado num zambuco que tinham feito dar à costa e que, por causa do estado do mar, não tinham podido levar para bordo das naus logo a seguir, tendo-os deixado em terra à guarda de alguns indianos que ali viviam.



Nesta altura, a armada que D. Francisco de Almeida tinha consigo era composta por doze naus, uma caravela e duas galés, já que duas naus tinham naufragado durante a viagem para a Índia, uma caravela ficara em Quíloa outra fora forçada a invernar em Moçambique, duas já haviam sido despachadas para irem bloquear Calicut e uma outra fora enviada a Cochim e Coulão com avisos diversos. O bergantim destinava-se a ficar em Angediva para serviço da fortaleza. Estando a construção desta praticamente concluída, D. Francisco de Almeida partiu com a sua armada para Onor, ao largo de cuja barra fundeou ao fim da tarde desse mesmo dia, que era 16 de Outubro. Na manhã seguinte, mandou alguns batéis sondar a entrada e fazer um reconhecimento ao longo do rio que dá acesso à cidade, ao mesmo tempo que recebia diversos mensageiros do rei de Onor, que iam e vinham com promessas vagas e inconclusivas. Pelas informações colhidas pelos batéis, veio D. Francisco de Almeida a saber que os habitantes da cidade estavam a retirar-se com os seus haveres para o interior e que o rei já tinha concentrado nela cerca de quatro mil homens que não cessava de reforçar. Convenceu-se de que as promessas do rei eram apenas um artifício para ganhar tempo e decidiu-se a atacar Onor. Na madrugada do dia 18, ainda escuro, embarcaram nos batéis e numa caravela cerca de seiscentos portugueses, que, capitaneados pelo próprio D. Francisco de Almeida, começaram a subir o rio em direcção à cidade.




O objectivo desta operação não era tanto castigar o rei de Onor pela sua ofensa como, principalmente, destruir um certo número de «naus de Meca» que se sabia estarem ali à carga, bem como as fustas do corsário Timoja que utilizava aquela cidade como base. Chegada a nossa flotilha ao local onde estavam varadas em terra as referidas naus e fustas, ordenou D. Francisco de Almeida a seu filho D. Lourenço de Almeida que, levando consigo um certo número de batéis, as fosse queimar, enquanto ele ficava com os restantes batéis em reserva. Aproximando-se da praia D. Lourenço de Almeida começou por mandar varrê-la com o tiro dos «berços» e das espingardas, após o que desembarcou sem oposição e pôs fogo aos navios e a uma parte da cidade. Acorreu então um grande corpo de tropas aguerrido e bem organizado que pôs em certa dificuldade D. Lourenço. Vendo isso D. Francisco de Almeida enviou-lhe logo reforços que lhe permitiram depois de rija peleja, pôr o inimigo em debandada. Mas este reorganizou-se com presteza e quando os portugueses estavam reembarcando nos batéis veio atacá-los novamente, sendo necessário recorrer ao tiro dos «berços» e das espingardas para o afastar. Nesta acção, além de parte da cidade de Onor, foram queimadas catorze «naus de Meca» e um certo número das fustas de Timoja. Dos indianos foram mortos vinte e dois e feridos muitos. Dos portugueses, apenas morreu um e poucos ficaram feridos, sendo um deles o próprio D. Francisco de Almeida, atingido num pé por uma flecha. Estando já toda gente embarcada nas naus, veio Timoja em pessoa, apresentar-se àquele, pedindo perdão em seu nome e em nome do rei de Onor por terem quebrado as pazes e solicitando a sua renovação. Acedeu D. Francisco de Almeida, a título provisório, e nessa mesma noite fez-se à vela, rumo a Cananor.


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